2.1.10

Revista Isto É destaca reportagem sobre pais que revelam orientação sexual aos filhos

SÃO PAULO – A revista Isto É desta semana traz a reportagem intitulada Filha, sou gay sobre pais que se envolveram com pessoas do sexo oposto, tiveram filhos e depois assumiram a homossexualidade.

Uma destas histórias é a de Alexandre Santos, conhecido no meio LGBT como “Xande”. Ele, que preside a Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT) de São Paulo, é apenas seu nome social (nome masculino). Alexandre Santos nasceu mulher e foi registrado como Alexandra, que teve a filha Bruna Peixe dos Santos, hoje com 18 anos.


Bruna comenta na matéria que a discriminação é grande e que já teve um namorado que terminou o relacionamento logo após saber sobre a transexualidade da sua “pãe” [pai + mãe], como ela costuma chamar Xande. “E tive amigos e pais de amigos que se afastaram por causa do preconceito", conta Bruna na reportagem.

Afastamento – Mas nem sempre a aceitação dos filhos de pais gays é tão fácil assim. A matéria apresenta a história de Oswaldo Braga, 51, que depois de contar para o filho Gabriel, 24, que era
A filha Bruna com o "pãe" Alexandre Santos

gay, teve que amargar um afastamento de praticamente dez anos com a rejeição do filho, na época com 15 anos. "Na hora fiquei engasgado. Não sabia o que falar, tamanho o meu espanto com a revelação".

Hoje Gabriel superou o preconceito e afirma que se gays são minoria, ele também é minoria da minoria. “Isso porque sou filho de pai gay”, comenta. Além dos depoimentos, a reportagem destaca o Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que vai contabilizar os casais homossexuais nos 58 milhões domicílios brasileiros.

Filho sempre sabe? – "Pô, pai, tô cansado de saber. Não falei antes porque fiquei constrangido. Não tem o menor problema”. Assim respondeu o filho do advogado Marcelo quando o pai disse a ele que era gay. Na época, ele tinha 10 anos de idade. A relação entre pai e filho só ficou comprometida por conta da decepção e vingança da ex-mulher de Marcelo, que proibiu o encontro do filho com o pai, alegando que ele poderia ser má influência. A tática da mãe surtiu efeito e Marcelo não vê o filho há dois anos, pois ele se recusa a encontrá-lo.


Leia a matéria

"Filha, eu sou gay "



Jovens contam como lidaram com a descoberta de que o pai ou a mãe é HOMOSSEXUAL


Gabriel tinha 15 anos quando o pai, que se divorciara da mãe alguns anos antes, o convidou para comer pizza, um programinha trivial que, no entanto, marcaria de forma especial a vida do adolescente. Gabriel idolatrava o pai. Considerava-o seu melhor amigo, um exemplo a ser seguido. Por isso, soou como uma pancada a frase curta e definitiva dita por Oswaldo Braga, 51 anos, enquanto ambos estavam à mesa. "Eu sou gay", falou o consultor técnico do Ministério da Saúde. "Na hora fiquei engasgado. Não sabia o que falar, tamanho o meu espanto com a revelação", lembra Gabriel. O garoto praticamente rompeu os laços afetivos com o pai e só os restaurou quase dez anos depois. Mas, hoje, se diz feliz por ter conseguido superar o preconceito. "Se os gays são minoria, eu sou a minoria da minoria, porque sou filho de pai gay", diz Gabriel, 24 anos. Ele disse que se orgulha de ter aprendido com o pai que o melhor mesmo é viver uma vida verdadeira. "Não é uma situação fácil de ser enfrentada", admite Braga "Mas é necessária."

Há uma grande distância entre saber e aceitar. A psicóloga paulista Vera Lúcia Moris, que coordena dois grupos de 30 pais gays, lembra que a adolescência é um período marcado por crises, inclusive com relação à sexualidade. "E o jovem pode ter problemas para aceitar, compreender ou lidar com a revelação da homossexualidade do pai", alerta. Mas é possível minimizar muito o impacto da revelação. O trauma é menor quando a criança cresce sabendo da orientação sexual do pai ou da mãe. Este é o caso da estudante paulistana Bruna Peixe dos Santos, 18 anos, que começou a tomar consciência, gradativamente, do homossexualismo da mãe a partir dos 4 anos. A frase "Filha, eu sou gay" foi sendo assimilada aos poucos e, hoje, Bruna assegura que não vê problema nenhum no fato de a mãe, Alexandra, ter mudado o nome para Alexandre Santos - o Xande que preside a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo. Mas a tranquilidade com que Bruna lida com o tema não reflete os aborrecimentos e decepções que já enfrentou. "Tive um namorado que terminou comigo quando lhe contei. E tive amigos e pais de amigos que se afastaram por causa do preconceito", conta ela. "Em compensação, tenho muitos outros amigos que dizem que queriam ter um pai como o meu", arremata Bruna, que chama Xande de "pãe".

A homofobia é causa da rejeição de muitos filhos. Temendo serem vítimas de preconceito e chacotas, eles optam pelo afastamento do pai ou da mãe HOMOSSEXUAL. "A gente morava no interior. Todo mundo sabia que meu pai era gay. Os colegas zombavam da gente, nos humilhavam", conta a atriz paulista Gabriela (que pede para não revelar o sobrenome), 29 anos, grávida de seis meses. Ela tinha 18 quando o pai revelou que estava namorando um rapaz, e pediu apenas compreensão. "Foi um choque. Incomodou muito. Cheguei a me envolver com uma mulher só para afrontar meu pai", recorda a atriz, que levou cinco anos para voltar a ter um bom relacionamento com o pai. "Li muito. Isso me ajudou a entender melhor a situação toda. Amo meu pai e tenho muito orgulho dele."

O universo de casais gays será dimensionado a partir do ano que vem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que fará uma pesquisa para saber quantos casais homossexuais residem nos 58 milhões de domicílios brasileiros. Certamente, o resultado dará uma ideia do quadro, mas não um número exato porque muitos preferem esconder a opção. Até nove anos atrás, se participasse da enquete do IBGE, o advogado carioca Marcelo (que não quer seu sobrenome divulgado) teria mentido, inclusive porque ainda estava casado. Ele "saiu do armário" - termo popular para dizer que uma pessoa se assumiu gay - ao ser pressionado pela exmulher. "Ela perguntou e eu confirmei", diz. Marcelo saiu de casa quando o filho tinha 3 anos e resolveu que era hora de revelar o fato para o menino aos 10. "Falei para ele, sem rodeios: "Papai é gay."" A reação do garoto surpreendeu: "Pô, pai, tô cansado de saber. Não falei antes porque fiquei constrangido. Não tem o menor problema." Mas sua ex-mulher, ao contrário, reagiu mal e passou a proibir os encontros dos dois, alegando que ele poderia ser má influência. Sem ver o filho há dois anos, porque o menino se recusa a encontrá-lo, Marcelo luta contra uma depressão profunda e tenta, na Justiça, recuperar seus direitos.

A batalha é longa. Há juízes que acreditam que a relação entre pais gays e seus filhos pode comprometer o desenvolvimento sadio da criança ou do adolescente. Não é raro o juiz sugerir que as visitas dos pais homossexuais sejam realizadas sem a presença do companheiro gay. A desembargadora gaúcha aposentada Maria Berenice Dias, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito da Família, discorda. "Não afeta o desenvolvimento nem leva o filho a ser HOMOSSEXUAL também. Afinal, o homo é filho do hetero", diz. Para a escritora Edith Modesto, 71 anos, fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), a revelação tende a ser mais bem digerida quando o filho tem até 4 anos de idade. "Porque o preconceito ainda não está arraigado, principalmente em relação às pessoas que elas amam." Mas, lembra ela, o fato de o filho aceitar a homossexualidade dos pais não implica, necessariamente, aprovação. O estudante Alan Rudolf, 17 anos, que mora com a mãe, a mecânica de avião Adriana Piske, 36 anos, e com a companheira dela, Kelly Vasconcelos, em Curitiba, Paraná, é bem sincero quanto a isso: "Não concordo, mas respeito", diz Alan, que soube da homossexualidade da mãe quando tinha 6 anos. "Para mim não era normal, mas acabei aceitando."

Fonte: Isto É

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