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15.2.10

Desigualdade de gênero e preconceito fazem das adolescentes e dos jovens gays mais vulneráveis ao HIV, dizem gestores de saúde e ativistas

Denominada por muitos profissionais da saúde como uma “fase delicada” da vida, a adolescência marca a transição entre a infância e a idade adulta, caracterizando-se por alterações físicas, mentais e sociais do indivíduo.

E é nesta fase que o uso constante e correto do preservativo é muitas vezes deixado de lado. Na campanha de prevenção do HIV durante o Carnaval deste ano, o Ministério da Saúde escolheu como foco as adolescentes de 13 aos 19 anos e os meninos gays da mesma faixa etária.

“O nosso objetivo é chamar a atenção dos jovens, de forma eficaz, para o uso da camisinha”, disse o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, durante o recente lançamento desta campanha.

A diretora do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Mariângela Simão, explicou que, entre as meninas, as relações desiguais de gênero e o não reconhecimento de seus direitos contribuem para uma maior vulnerabilidade à infecção do HIV.

"As meninas têm outro tipo de relação sexual. Uma pesquisa revelou que 30% delas confiam no parceiro. Levar o preservativo na bolsa é algo responsável, mas muito desconfortável para elas", disse Simão.

Já entre os jovens gays, a diretora acredita que falar sobre a sexualidade é ainda mais difícil, pois precisam enfrentar o preconceito nos ambientes sociais e, na maior parte dos casos, a falta de apoio da família.

Felipe Leite Policisse, de 17 anos, é coordenador da organização não governamental paulistana E-Sampa, destinada aos direitos dos adolescentes gays.

Segundo ele, a maioria dos jovens homossexuais não liga para o fator risco e não pensa na consequência de uma relação sexual desprotegida.

“Acham que nunca vai acontecer com eles. Para mim, não é falta de informação o problema. Falta é identificação do jovem com as campanhas GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros."

A estudante de artes plásticas e coordenadora da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e Aids, Micaela Cyrino, de 21 anos, acredita que a paixão muitas vezes é inimiga da prevenção.

“Uma prova de confiança significa em muitos casos não usar preservativo. As meninas da minha idade ou até mesmo mais novas veem na mudança de apenas ficar com um menino para namorar com ele, como uma mudança de usar para deixar de usar a camisinha”, comentou.

Mica, como é chamada pelos amigos, vive com HIV desde criança e conta que sua percepção sobre como a sociedade vê a aids mudou muito.

“A prevenção da aids já não parece mais uma preocupação. Os adolescentes que estão entrando na fase sexualmente ativa agora não viveram ou não se lembram de como a aids surgiu. Da época que a aids levava os famosos”, comenta.

Para ela, é preciso resgatar em todo o país o perigo da aids, mas claro que fazendo uso de toda a informação obtida acerca dessa doença para se evitar novos preconceitos.

“Falar dos números da aids é muito subjetivo. É preciso sempre lembrar como se transmite ou não se transmite o HIV; que há tratamento, mas não cura; e que apesar de não aparecer mais famosos com aids, muita gente ainda morre de aids”, finalizou.

Os últimos dados do Ministério da Saúde sobre óbitos relacionados à aids informam que, em 2007, 11.060 pessoas que morreram em decorrência do HIV foram registradas no Brasil, o que dá uma média de mais de 30 casos por dia.

Dez anos antes, registrou-se uma pequena diferença. Foram 12.070 mortes anuais, ou seja, pouco mais de 33 óbitos diários.

Fonte: Agnciaaids