Controle da hepatite B no Brasil - 1999-2009

Autor(es): Alexandre Precioso, Expedito Luna e Isaias Raw
O Estado de S. Paulo - 23/07/2010

A hepatite B é uma doença infecciosa causada por um vírus, transmitida pelo sangue e por relações sexuais. Os recém-nascidos de mães portadoras do vírus da hepatite B podem ser infectados durante o parto, pelo sangue materno, e alguns desenvolvem uma hepatite aguda que pode ser fatal. Crianças de 1 a 5 anos e adultos jovens raramente desenvolvem uma hepatite aguda, mas ficam com uma infecção crônica que leva até 30 anos para apresentar cirrose ou câncer do fígado. Sem sintomas, o portador do vírus continua transmitindo a doença.

Em 1982 foi desenvolvida uma vacina recombinante, que utiliza uma levedura modificada geneticamente, que induz a formação de anticorpos.

Em 1996 o Centro de Biotecnologia do Instituto Butantan desenvolveu uma levedura recombinante que produzia a vacina contra hepatite B. Com recursos do Ministério da Saúde, do governo do Estado de São Paulo e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi desenvolvida uma tecnologia de produção industrial, montada a fábrica e foram treinados os técnicos que cultivam o lêvedo modificado num fermentador de 1.500 litros, quebram as leveduras, isolam e purificam os vírus, usando ultracentrífugas especiais, que desenvolvem uma força 200 mil vezes a da gravidade e enormes colunas de cromatografia. Cada criança ou adulto deve receber três ou quatro doses de vacina. Com mais de 3,5 milhões de nascimentos por ano no Brasil, eram necessários mais de 15 milhões de doses de vacina por ano e progressivamente vacinar, além de todos os profissionais que têm contato com sangue, todos os jovens - o que seria inviável comprando uma vacina importada, que custava cerca R$ 100! Com a produção pelo Butantan o Ministério da Saúde recebe a vacina por cerca de R$ 1,20, o que vem permitindo vacinar todos os recém-nascidos e iniciar a vacinação dos jovens. Este ano o Butantan dobrará sua produção, fornecendo 33 milhões de doses.

Não era suficiente desenvolver a vacina que imunizava camundongos. Era necessário demonstrar que a vacina é eficaz, induzindo anticorpos, e segura em seres humanos. A vacina foi testada, a partir de 1995, em alguns voluntários do Butantan, no Centro da Saúde da Universidade Estadual Paulista e com estudantes da Faculdade de Medicina de Londrina. Com enorme pressão contra a autossuficiência nacional, foram exigidos novos ensaios clínicos, que acabaram envolvendo mais de 5 mil voluntários, conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, pelo Instituto Evandro Chagas e pelo Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, os quais demonstraram o que já se esperava: a vacina do Butantan é segura e eficaz, comparada com uma vacina importada.

Entre 1999 e 2009, 154 milhões de doses da vacina produzida no Butantan foram distribuídas pelo Ministério da Saúde para vacinação pelos governos dos Estados e municípios. Em 2008, a Coordenadoria do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, analisando os dados, reconheceu que a vacina do Butantan, como as importadas, antes aprovada até 19 anos de idade, poderia ser usada em qualquer idade.

A prevenção da infecção dos recém-nascidos exigia testar as mulheres grávidas, para oferecer a vacina aos bebês. Esse era um processo caro e de certa forma fútil. Dizer a uma jovem que ela era portadora do vírus e que iria anos mais tarde desenvolver cirrose ou câncer, sem oferecer possibilidades de tratamento, era perverso. Mais fácil era vacinar todos os bebês ainda na maternidade. Demonstrou-se que a vacinação dos bebês nas primeiras 24 horas de vida é capaz de impedir a transmissão da mãe portadora ao recém-nascido. Lamentavelmente, a cobertura vacinal dos recém-nascidos brasileiros com a primeira dose da vacina contra hepatite B na maternidade é de apenas 40%.

No sentido de facilitar ainda mais a vacinação na maternidade, o Instituto Butantan desenvolveu uma vacina dupla, com BCG (vacina contra tuberculose, que também é administrada ao bebê na maternidade) e hepatite B. Essa vacina foi testada com sucesso pelo Departamento de Pediatria da Unicamp. Era preciso evitar a coqueluche, que é prevenida, somente a partir do quarto mês, pela vacina tríplice bacteriana (DTP). Uma nova vacina foi desenvolvida, introduzindo no DNA do BCG um gene da toxina da coqueluche, que protege em camundongos tanto para tuberculose como coqueluche. Essa vacina, tríplice - hepatite B, tuberculose, coqueluche - ainda deve ser testada, neste ano, em adultos e bebês e estar disponível em 2012. Pesquisas em andamento, em colaboração com o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, indicam que a nova vacina será mais eficaz no tratamento do papiloma da bexiga.


Cerca de 120 milhões de brasileiros com mais de 50 anos não foram vacinados quando crianças ou jovens e não o seriam com a vacina recombinante que está em produção. Essa população, exposta à hepatite B, inclui profissionais de saúde, policiais, bombeiros e outros que possam expor-se a sangue, pacientes aguardado transplantes de órgãos, imunodeprimidos e com doenças que exigem transfusões frequentes. O Butantan está pesquisando vacinas com um DNA viral com mais genes e o uso de um adjuvante que estimula a produção de anticorpos, o que resultará numa vacina mais eficaz para estes grupos mais vulneráveis à infecção pelo vírus da hepatite B.

RESPECTIVAMENTE, DIRETOR DE ENSAIOS CLÍNICOS DA FUNDAÇÃO BUTANTAN E MÉDICO DO INSTITUTO DA CRIANÇA DO HOSPITAL DE CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP (FMUSP); PROFESSOR DO INSTITUTO DE MEDICINA TROPICAL DA USP; E PROFESSOR EMÉRITO DA FMUSP E PRESIDENTE DO CONSELHO TÉCNICO-CIENTÍFICO DA FUNDAÇÃO BUTANTAN
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