A favor do direito de escolher o sexo como profissão

Do Portal exame




Os profissionais do sexo funcionam como uma espécie de welfare sentimental do planeta, de rede de proteção social ligada à libido, não deixando quase ninguém de fora desse socorro aos desvalidos do prazer e da afeição na espécie humana




É o seguinte: nunca paguei por sexo. E nunca pagarei.

Essa afirmação dura, é claro, dura o tempo exato em que eu continuar sendo quem sou hoje. Posso mudar. E aí tudo pode mudar junto. (Mas cá entre nós: não creio.) Trata-se de uma questão de princípios. E não de princípios morais, como você possa imaginar. Os princípios a que me refiro aqui tem a ver com ego, com aquilo que eu espero de um relacionamento íntimo, com a minha necessidade de ser amado. Muito mais do que com um juízo de valor sobre padrões de conduta em sociedade. Woody Allen tem uma frase ótima a respeito desse assunto, que é mais ou menos assim: “sou completamente contra o sexo pelo sexo. Mas só até às 4h da manhã, quando eu estiver sobrando sozinho numa festa.”

No meu caso, essa opção por não comprar carinhos advém do fato de que eu sou um sujeito carente. Preciso muito imaginar que aquela moça (outra coisa que acho que não muda mais é minha opção por ter sexo exclusivamente com mulheres) está ali, nua à minha frente, com seus lábios carnudos se abrindo como uma flor cheia de néctar diante de mim, por minha causa – e não por causa dos trocados que eu eventualmente tiver no bolso. Sou egoísta. Quero paixão por mim, para mim, pelo que eu sou, pela minha capacidade de seduzir – e não pela minha grana. Se o sorriso for falso, se o orgasmo for fingido, se a aceitação for forçada, se o carinho for uma obrigação, se a vontade autêntica da pessoa não estiver ali comigo naquele momento, então eu não quero. Dispenso. Melhor não. Tenha dinheiro na parada ou não.

Quero desejo genuíno. Quero que o elemento irresistível da equação amorosa seja eu, só eu. E meu dinheiro não sou eu. Jamais será. Quatro, seis ou oito notas de 50 reais são uma coisa ordinária, um não diferencial, um tíquete que quase qualquer um tem ou pode arranjar. E quero uma mulher que me escolha a dedo, que me queira naquele momento em detrimento de todos os outros homens – e não que esteja atrás de um cheque (elas aceitam cheque?) sem fazer distinção alguma entre mim e os milhares de sujeitos que também poderiam assiná-lo. Isso me baratearia muito diante de mim mesmo. Me colocaria numa posição humilhante, de ter que comprar afeto e preferência, de ter de por algo que acho que considero que deveria receber de graça, de bom grado, que deveria ser trocado comigo numa relação baseada em algum tipo de desejo ou de sentimento, e não numa fria troca comercial. Não encaro sexo como produto ou serviço. Nem o concebo como uma relação econômica. Sexo para mim é Terceiro Setor, é zona de generosidade, entrega, não pode ter fins lucrativos.

Mas há quem goste especificamente do sexo pago. Como uma modalidade do esporte. Transar com prostitutas (ou com garotos de programa) nesse caso vira um fetiche, muito mais do que uma necessidade pessoal, uma imposição cruel do destino ou uma situação desfavorável que decorra de uma impossibilidade individual do sujeito (a de achar parceiros que queiram deitar com ele por gosto). Tenho um respeito todo especial por esse tipo de paladar sexual. Como tenho por quase todo tipo de libido que envolva a diversão mútua e consentida entre duas pessoas aptas a decidir sobre si mesmas (ainda que eu jamais venha a exercer muitas delas na minha alcova). Tenho também uma simpatia toda especial pelos profissionais do sexo. Além de funcionarem historicamente, desde tempos primevos, como uma espécie de welfare sentimental do planeta, de rede de proteção social (e emotiva) ligada ao sexo para a espécie humana, não deixando quase ninguém de fora desse socorro aos desvalidos do prazer e da afeição, eles também se conectam de modo absolutamente lícito àqueles que gostam desse tipo de brincadeira – sexo misturado com dinheiro. Eles brincam com quem gostar de brincar sexualmente levando uma relação de poder econômico para a cama. (Note-se bem que o leito nupcial das melhores e mais exemplares famílias, há muitos séculos, e em todo canto do mundo, com pais patrões e mães matronas, também embute enormes, imensas, gigantescas relações de poder econômico.)

Por isso não compreendo por que não se regulariza imediatamente essa profissão. É a mais antiga do mundo! A atividade já é reconhecida mas ainda não há regulamentação a respeito. É mais ou menos assim: a ocupação já começa a sair da completa obscuridade, e os profissionais do sexo já começam a se organizar, mas ainda não é possível ticar essa opção profissional na declaração de imposto de renda. Considero que a um Estado laico e leigo cabe reconhecer a vida como ela acontece na sociedade que o compõe. E abarcar todos os cidadãos dentro da legalidade, da civilidade, da municipalidade. Deixar todo um setor da atividade alijado de direitos, à margem do reconhecimento e da proteção da lei e das instituições, é criar e manter e fomentar uma casta marginal. E ninguém gosta de ser marginal. E, sobretudo, ninguém gosta de ter marginais à volta. O custo dessa nossa tremenda hipocrisia, dessa nossa dificuldade em aceitar as diferenças e tolerar juízos morais distintos dos nossos, e o impacto dessa nossa dificuldade em lidar com a realidade, com a vida como ela é, especialmente quando questões sexuais estão envolvidas, são sentidos na pele e na carne pelos excluídos. E isso, como já devíamos ter aprendido aqui no Brasil, sempre tem volta. E essa volta nunca é bonita.

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