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24.7.10

'Navalha na carne' tem pré-estreia para prostitutas"


Fonte: O GLOBO
Por Luiz Felipe Reis

A noite cai aos poucos nos arredores da Praça Tiradentes. As luzes dos sobrados se acendem e o movimento de passantes aumenta em frente ao nº 7-C da Avenida Passos, o Hotel Paris. Numa pequena entrada de azulejos encardidos, algumas moças se aboletam à espera do próximo cliente, espremidas em seus shortinhos e tops sem sutiã:

- Quer namorar? - perguntam elas.

Mas a noite reserva outros planos. Em poucos minutos, as receptivas prostitutas locais sobem para o segundo andar do hotel, mas não para trabalhar. O lugar resguarda um ar decadente, de quinta categoria, como pede a trama cunhada pelo dramaturgo Plínio Marcos para a peça "Navalha na carne", que estreia ali no dia 29 de julho. A ocasião é especial. Em instantes, uma sessão exclusiva da peça era oferecida às mulheres. À frente delas, se aconchegam num colchonete rosa, em cima de uma cama circular de concreto, a prostituta Neusa Suely, o cafetão Vado e a bichinha de bordel Veludo, personagens interpretados pelos atores Marta Paret, Rogério Barros e Rubens Queiroz. O ambiente é colorido em tons de rosa, pela luz baixa que irradia de um pequeno abajur apoiado na cabeceira. E a excitação, entre elas, impera.

- Nos ensaios, elas sempre perguntavam: "Quando é que é a festa?" Aí a gente explicava que era teatro, e elas tentavam entender. Até porque a maioria delas nunca assistiu a uma peça - diz Marta.

O quarto usado como cenário recende aos perfumes das moças. Recepcionista do hotel, Ana Costa quase chegou atrasada. Tomou banho, caprichou no cabelo, na maquiagem e no figurino. Afinal, há mais de três anos ela não ia ao teatro. A última vez fora logo em frente, no João Caetano. E é por isso que ela valoriza o fato de o teatro ter atravessado a rua e se aproximado do seu mundo, em vez do contrário.

- Da última vez, fui com a minha mãe, que me levava, mas ela morreu... E eu nunca mais voltei - conta Ana.

A montagem recria os conflitos de interesses, a fragilidade psicológica e a confusão de sentimentos entre um cafetão e uma prostituta, além da atmosfera violenta de uma zona marginal, algo que não parecia caber num palco convencional.

- Basta entrar no hotel para estar no contexto. Plínio Marcos foi subversivo ao usar a linguagem das ruas, mas isso não choca mais - analisa o diretor Rubens Camelo. - Trazer a peça para cá resgata esse incômodo. É um clássico. Não por causa do texto, mas porque o país não muda. Era isso que dizia Plínio. É claro que não é bem assim, mas faz todo o sentido.

E também fez sentido para a prostituta Rosinha, que via pela primeira vez em ficção um pouco do que vive diariamente.

- Cafifa é assim mesmo, quer fumar, beber, quer dar porrada... Achei muito bom isso aí - disse a "prima".