Breaking

30.8.10

Demora no combate à exploração

A “explosão” da prostituição infantil em Jaci Paraná começou há dois anos, mas as autoridades são lentas no enfrentamento.

Porto Velho (RO), 22 de Fevereiro de 2010
Leandro Prazeres
Ângela Fortes, conselheira tutelar de Porto Velho, alerta para a demora das autoridades no combate à prostituição na região das usinas (Foto: Antônio Lima)

Apesar de as obras da usina de Jirau e o aumento da prostituição em Jaci Paraná terem, pelo menos, dois anos, as autoridades do Estado de Rondônia ainda engatinham no combate a essa prática na região.

Quem mais sente esse atraso na preparação das autoridades são os próprios agentes públicos. Raiclin Lima da Silva, do comissariado da Infância e Juventude, está com a mesa abarrotada de autos de infração. Nos últimos meses teve que aumentar, mesmo sem estrutura suficiente para isso, as visitas a Jaci Paraná em 2009. “Até 2008, eu fazia, no máximo, duas visitas por ano, lá. Era um lugar tranquilo. Agora, só no último semestre, fizemos seis operações”, diz Raiclin.

As ações do comissariado em Jaci Paraná se tornaram tão frequentes que Raiclin teve de mudar a estratégia. “Os bares mudaram o horário de funcionamento. Como a gente sempre ia pela noite, agora eles fazem as festas durante o dia e nos dias de semana. É uma estratégia para burlar a nossa fiscalização”, diz o chefe do comissariado.

Lentidão
Mas é nos conselhos tutelares de Porto Velho que a falta de planejamento para lidar com o problema fica mais evidente. A cidade, com seus 382 mil habitantes (segundo o IBGE), tem apenas dois conselhos tutelares para atender distritos distantes como Jaci Paraná, que fica a 100 quilômetros da sede de Porto Velho e é um dos mais “próximos”. Alguns ficam a mais de 300 quilômetros.

“A gente tem que fazer das tripas coração. Temos apenas dois carros para cinco conselheiros. Quando eu viajo para os distritos, chego a ficar seis dias sem comunicação”, desabafa a conselheira Ângela Fortes.

Repasses
O administrador do distrito de Jaci Paraná, Nilton Barbosa reclama da falta de investimentos para combater o avanço da prostituição em Jaci Paraná. “Eles prometeram construir um conselho tutelar aqui em Jaci, mas até agora, não saiu do papel. O pior é que a gente viu a nossa população sair de quatro mil para dezesseis mil pessoas em menos de dois anos e não estamos vendo investimentos”, diz.

No precário posto de saúde de Jaci Paraná, o número de meninas que buscam atendimento subiu tanto que os armários de metal já não comportam o número de fichas de pacientes. “São meninas de até 12 anos de idade que vêm aqui pedir camisinha.A gente pergunta se é pra usar com os namorados, mas sabemos que não é. Ao menos algumas delas estão se prevenindo”, diz a técnica de enfermagem Hélia de Jesus.

A secretária municipal de Assistência Social de Porto Velho, Benedita do Nascimento Pereira, discorda da avaliação de que o Poder Público não se preparou para o “boom” causado pelas das usinas. “Queremos inaugurar uma sede do conselho tutelar em Jaci e nós acreditamos que isso vai reduzir bastante o problema”, diz a secretária.

Benedita diz que a prefeitura não tinha como agir preventivamente em relação ao aumento na quantidade de menores de idade se prostituindo na região. “Não tínhamos como construir um conselho antes da demanda surgir. O Poder Público não age assim. Tínhamos que ter uma demanda pra isso”, afirma.

Fonte: A Crítica / Manaus