Educação: o desafio da qualidade

da Agência Brasil
25/08/2010

Brasília - Quando o Brasil foi às urnas pela primeira vez, após o fim do regime militar, os candidatos não precisavam de propostas muito complexas para a área da educação. Prometer a construção de escolas e a criação de novas vagas era suficiente, já que cerca de 15% das crianças de 7 a 14 anos não estudavam. Hoje, a taxa de atendimento dessa faixa etária beira os 98%. Com a melhoria do acesso, o desafio agora é garantir educação de qualidade para todos – apontam especialistas e organizações da área.

“Nos anos anteriores o foco era na oportunidade de toda a criança poder estudar, hoje tem que ser na garantia da aprendizagem das crianças. Mas a garantia da qualidade é muito mais difícil de construir porque não depende de uma caneta. É um grande mosaico de fatores que o gestor precisa levar em conta de acordo com a realidade da escola”, explica a diretora executiva do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

O representante da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Vincent Defourny, disse que o país deu passos importantes nos últimos 15 anos, mas a educação ainda é uma das áreas “mais problemáticas”. O oficial de projetos da Unesco, Wagner Santana, complementa: “Os desafios vão se tornando mais complexos na medida em que a gente se aprofunda na questão do direito a educação. E ele só efetivo com crianças, jovens e adultos aprendendo”.

Apesar de não haver uma fórmula para construir uma educação de qualidade, os especialistas apontam o professor como peça-chave desse processo. Sem remuneração adequada e bons planos de carreira para a categoria, será difícil mudar a realidade da sala de aula, defende a coordenadora-geral da organização não governamental (ONG) Ação Educativa, Vera Masagão. “A escola precisa atrair talentos e pessoas motivadas. É necessário investir na formação e na valorização para que a área se torne atrativa”, afirmou.

Defourny acredita que esse é um gargalo da educação hoje. “A formação, a remuneração, a perspectiva de carreira do professor, tudo isso tem que ser resolvido de forma consistente”, disse. Segundo estudo da Unesco, a média salarial do professor da educação básica, em 2006, era de R$ 927, com grandes variações nos estados chegando a R$ 635 (Nordeste). O rendimento é bem menor do que o de outras carreiras que também exigem formação de nível superior.

“Não é que toda a responsabilidade seja do professor, mas há um amplo reconhecimento de que esse é um dos principais fatores para a qualidade da educação”, defende Santana. Vincent alerta ainda que sem recursos adequados não é possível chegar a uma oferta de qualidade. Hoje, o país investe 4,7% do Produto Interno Bruto (PIB) na área, segundo dados mais recentes do Ministério da Educação.

“O investimento aumentou, mas ainda estamos muito longe dos padrões dos países com uma educação de melhor qualidade. É um assunto que precisa ficar claro nas prioridades de um governo”, afirmou. Os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) investem, em média, entre e 6% e 7% do PIB. “Mas eles, em geral, não têm a dívida história com a educação que nós temos. Além disso, o PIB é maior. Então, o volume investido é mais alto”, compara Santana.

Ele acredita que outro desafio é integrar a educação a políticas mais amplas de desenvolvimento do país. “Todos dizem que a educação é essencial, mas é preciso discutir como o componente educacional se integra quando olhamos para o futuro de um país que tem a possibilidade de ser a quinta economia mundial”, disse. Na avaliação de Santana, o debate sobre educação nas eleições ainda “fica muito na superfície”.

“O país tem uma janela de oportunidade, está crescendo muito rapidamente, e tem recursos públicos como nunca. Este é o momento para investir em educação, não dá para esperar. É um investimento de médio a longo prazo que precisa ser feito”, afirmou Defourny.

Edição: Aécio Amado

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