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20.9.10

Ex-prostituta volta às ruas para ser senadora

Do dn.sapo.pt
por VANESSA RODRIGUES, NO RIO DE JANEIRO


Provocadora, rebelde, CEO da marca Daspu, conselheira da ONU, prostituta reformada. A brasileira Gabriela Leite é uma profissional da vida em campanha política nas ruas para ser senadora federal pelo Partido Verde.


No último domingo, havia mulheres de biquíni reduzido e homens de calções-cueca na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Gabriela Leite estava de calças de ganga, chinelos e T-shirt preta estampada com a palavra Daspu a amarelo. Marca que criou há 18 anos e que significa «Das putas». Cigarro na mão. Um suspiro: «Faz muito tempo que não venho à praia, não tenho paciência. Além disso, não tenho coragem de pôr o biquíni.» Nota-se-lhe uma timidez. Na noite anterior, a ex-prostituta de 59 anos que é candidata a senadora federal no Rio de Janeiro pelo Partido Verde (PV), o mesmo da presidenciável Marina Silva, tinha andado até às cinco da manhã, em campanha política, pelos bares da Lapa. Uma hora depois, o assessor de imprensa e companheiro de anos, Flávio Lenz, escrevia no Twitter dela: «Quase seis da manhã, agora quem escreve é o marido. Larga o Facebook, Gabriela!» Às dez e meia estava já na praia do Flamengo a distribuir panfletos verdes. «Meio ambiente é o ambiente inteiro», o slogan do PV. Fotografia da candidata: óculos de massa pretos e o cabelo puxado para o lado esquerdo. A mesma que aparece na maioria das reportagens, nas entrevistas, no Facebook, no blogue, no YouTube. No site a imagem tem ainda uma marca de beijo de bâton. «Gabriela Leite 4301». Faltava o seu slogan oficial «Puta deputada», que na gíria de São Paulo, de onde é natural, é sinónimo de «grande, muito, excepcional». Gabriela caminharia pela marginal durante duas horas. Encontrou o ministro da Saúde do Brasil, José Gomes Temporão. E uma câmara de vídeo seguia-lhe os movimentos. Uma antropóloga nova-iorquina está a fazer um documentário sobre a campanha da ex-prostituta. O frenesim vai a meio. Falta menos de um mês para o Brasil ir a votos.
Gabriela não é, porém, uma desconhecida do grande público. Se a imprensa internacional tem feito um alarido sobre a sua candidatura é porque esteve desatenta nos últimos anos. «Ela surgiu naturalmente. Toda a minha vida faço isto. Sou militante há trinta anos: lutar pelos direitos sexuais é o meu trabalho. Se ganhar a eleição, vou passar a fazê-lo de uma forma pública. Essa é a diferença», desmistifica à nm. O óbvio: reivindicar melhores condições de trabalho para as prostitutas (muitas são ainda encarceradas, assassinadas, agredidas), descriminalizar o aborto, propor políticas de saúde pública, acabar com a discriminação contra os homossexuais. O país da sedução é ainda «demasiado preconceituoso e falso moralista», diz.

Provocadora?
Já se escreveu muito sobre esta ex-prostituta licenciada em Sociologia nos anos de 1970. Ela já causou muitos embaraços em público, programas de televisão, e na ONU, quando foi convidada para ser oradora. Levou um vestido verde justo que «desagradou à ala». Mas é sobretudo por agarrar na voz das prostitutas, travestis e homossexuais que mexe com a moral do Brasil. Primeiro, «puta também é cidadã brasileira». Depois, «há um preconceito básico para quem faz do sexo uma profissão: de que somos umas pobres coitadas à procura de sermos salvas. Que hipocrisia». Exemplo: a própria ONU elaborou um «documento equivocado» sobre o «problema da prostituição». Gabi, como é conhecida, faz parte de um grupo de trabalho para tornar esse documento «ajustado à realidade». Isto é: separar a prostituição do tráfico de droga; prostituição e pobreza não estão necessariamente ligados; «as putas não querem que lhes diminuam os clientes» e não andam à procura de outra profissão. Por isso, não tentem arranjar-lhes outro trabalho para se «integrarem na sociedade», ironiza Gabriela.
Fernando Gabeira, conhecido político do PV candidato a senador, diz que ela conheceu o Brasil com uma intimidade que só as mulheres da vida podem conhecer. «Ela tem uma consciência do que é o país.»
Gabi deixou a mais velha profissão do mundo há mais de vinte anos. Nessa altura, chegou a passar por momentos pesados. A família renegou-a. Foi afastada das filhas. Teve a vida numa mala durante meses. Clientes que tentaram enganá-la. Ameaças. Teve amigos assassinados por serem gays. O último foi há duas semanas. Há mais histórias desta mulher da vida, aliás nome da ONG (DaVida) que criou para ajudar e orientar prostitutas. Quase tudo está no livro autobiográfico Filha, Mãe, Avó e Puta (2009).
Quando circulava por São Paulo, nos anos setenta, frequentava os botequins da resistência intelectual paulistana. As ruas cheiravam já a ditadura. De certa forma, ela diz que ainda se lhe sente o cheiro na política actual. «Há projectos de lei travados no Congresso por preconceito. Ele não representa a sociedade brasileira com as suas diferenças: é maioritariamente conservador», condena. Garante que pode colmatar essa lacuna, até porque as próprias mulheres têm ali apenas oito por cento de voz. Se ganhar, vai ser responsável pelo Projecto de Lei 98, que «legaliza a prostituição em todos os sentidos.» Promete elevar o tom e, de certa forma, denunciar que pornográfico é aquilo que a política brasileira tem vindo a fazer com os direitos das mulheres da vida: «violando direitos fundamentais».

Gabriela Leite
? Nasceu em São Paulo em 1951
? Começou a trabalhar aos 14 anos
? Formou-se em Sociologia pela Universidade de São Paulo
? Aos 22 anos decidiu ser prostituta: trabalhou nas famosas zonas de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro
– Na década de 1990 fundou a Rede Brasileira de Prostitutas, da qual ainda é coordenadora
– Em 1992 fundou a ONG DaVida, para reconhecimento da prostituição como profissão.
– Faz parte da Rede Latino-Caribenha de Trabalhadoras do Sexo
– Em 2005 criou a marca de roupa Daspu, numa provocação à marca de luxo brasileira Daslu
– Em 2009 lançou a autobiografia Filha, Mãe, Avó e Puta, que esta a ser adaptada para o cinema por Caco Souza.

Loja Daspu

Os corpetes são pretos e vermelhos, os calções roxos e reduzidos. Os vestidos largos e leves, as T-shirts, de várias cores, têm o desenho estilizado de uma mulher sedutora. Em comum têm a marca Daspu, abreviação de «Das putas», a marca criada no Rio de Janeiro, em 1992, por Gabriela Leite, ex-prostituta.
As roupas têm uma loja virtual, a putique, ou podem ser compradas na sede da ONG DaVida, fundada para orientar e defender os direitos das prostitutas. O nome rivaliza com a famosa marca de luxo brasileira Daslu, que a envolveu numa disputa jurídica. A contenda serviu para aumentar as vendas e o reconhecimento da marca. As passerelles do São Paulo Fashion Week já viram as meninas da vida a desfilar e, a semana passada, a nova colecção esteve em Viena, na Áustria, a propósito de um encontro sobre sida.