5.9.10

Mercado dos prazeres

 Cada vez mais, praças do Centro abrigam redutos da prostituição à luz do dia e dão dor de cabeça a moradores e lojistas 

Mayco Geretti
Agência BOM DIA
Domingo, 05 de setembro de 2010


No grupo de cinco mulheres, três são Jéssicas. O nome de guerra é comum na praça Coronel Fernando Prestes, no Centro de Sorocaba. Com vestidos nem sempre ousados a ponto de sinalizar que elas estão lá com o exclusivo fim de trocar sexo por dinheiro, dezenas de mulheres se aglomeram e, mesmo à luz do dia, transformam o local num ponto de prostituição que incomoda lojistas e moradores da região.
O constrangimento de negociar programas diante do grande público que passa pela praça durante o dia é menor, elas garantem, do que o alívio de não ter que lidar com os perigos da noite.
As garotas com as quais a reportagem conversou, aboliram o trabalho noturno. A luz, o movimento nas ruas, a presença de policiais traz uma segurança que o trabalho na calada da noite não oferece. “Pelo menos sabemos que estamos num hotel
e que se dermos um grito na janela, alguém vai olhar. No começo o trabalho diurno vem como uma opção, mas com os tempos acaba se tornando a melhor saída”, afirma Sandra, 32.
Além da Coronel Fernando Prestes, outra praça que é reduto da prostituição diurna é o Largo do Rosário. Mesmo nos dias em que a feira de artesanato é montada, o movimento não diminui.
Embora moradores, comerciantes e garotas de programa tenham aprendido a se tolerar com o tempo, a repulsa de ambos os lados não termina. Dois dedos de saia a menos bastam para que surjam reações exaltadas de quem vive ou trabalha no entorno da praça.
“É uma baixaria. Tenho vergonha de passar aqui com minha filha. Ela fica me perguntando coisas ao ver esses tipos [se referindo às prostitutas]”, afirma a comerciária Vanessa Góes, 44.
No revide fala a garota de programa Aline, 24, que alega que a atividade em nada influencia a vida de terceiros. “Não estamos gritando para anunciar sexo, não há cartazes. Pelo fato de estamos paradas, apenas com uma bolsa ou nem isso, já dá a entender que somos garotas de programa. Se uma ou outra usa saia curta, basta andar pela rua e ver que existem mulheres bancárias, empresárias e comerciantes que também usam estas roupas.”
A reação mais comum entre as pessoas comuns que querem expulsar a prostituição do Centro é acionar a polícia, mesmo que as garotas de programa estejam somente paradas em seus pontos.
A Código Penal Brasileiro, no entanto, não define a prostituição como crime. Se prostituir é direito de qualquer cidadão. Explorar a prostituição alheia através da cafetinagem, sim, é crime.
Pioneira faz até 12 programas ao dia
Edna, 50 anos, tem 20 anos de prostituição só na praça Coronel Fernando Prestes, os três últimos trabalhando exclusivamente
durante o dia. A mudança de turno não influenciou seus rendimentos e nem a aproximação de clientes: por dia ela chega a fazer 12 programas.
O valor cobrado é de R$ 40, mais R$ 7 que o cliente desembolsa para pagar meia hora de permanência nos hotéis do Centro. Homens na casa dos 40 anos representam o maior filão de Edna, que em sua listade clientes tem homens casados que já saiam com ela quando solteiros.
Edna não tem qualquer plano de se aposentar. Na única vez que deixou as ruas, tentou manter relacionamentos que jamais vingaram. “Para mim fazer sexo com os clientes é como servir uma xícara de café a alguém, ou limpar o chão. É um trabalho que já se tornou natural para mim. Não acho a profissão tão ingrata como pintam. O dinheiro paga as contas e fazemos nosso horário, basta manter-se longe das confusões e se cuidar.”

Lojistas sentem-se impotentes

As reclamações de moradores e comerciantes chegaram às reuniões do Conseg (Conselho de Segurança), formado por representantes da comunidade, do poder público e forças policiais. A ideia é identificar problemas ligados à segurança e definir saídas, mas no caso da prostituição, não há uma alternativa já definida.
O presidente da Associação Comercial, Hudson Pessini, diz que o ideal é que as garotas trabalhem em outros pontos, mas que não há como impedir a ação. A revitalização do Largo do Rosário – que está em vias de começar – é tida como aposta dos comerciantes para o fim da prostituição naquele local.
Já para a praça central, o buraco é mais embaixo. O comando da Polícia Militar informa que as garotas e programa são constantemente revistadas à procura de drogas e outros objetos ilícitos, assim como outros cidadão que usam a praça.

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