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26.9.10

Mercado tem faturamento milionário

Do JCNET
26/09/2010

Em Bauru, apenas com giro de motéis e acompanhantes, as cifras ultrapassam a casa dos R$ 2 milhões mensais
Luiz Beltramin
A cotação do sexo está em alta no mercado. Cada vez mais presente no nosso dia a dia, desde anúncios e programas de TV, até a abertura e aceitação sempre mais forte do comércio de produtos eróticos, o sexo gera receita, e muita.

A movimentação financeira envolve a venda de artigos eróticos nos já populares sex shops e lojas de lingerie, além do alto faturamento de motéis - cada vez mais incrementados e com variedade de quartos temáticos e serviços -, incluindo a clandestinidade da prostituição. O fato é que sexo, hoje em dia, está direta ou indiretamente atrelado ao dinheiro.

Somente em Bauru, levando-se em conta o faturamento médio de acompanhantes de ambos os sexos tanto das ruas quanto da Internet e por meio de anúncios em classificados de jornal, acrescidos ao lucro médio de estabelecimentos que vendem material erótico (desprezando filmes e revistas) e lucro médio estipulado dos motéis, a cifra mensal ultrapassa os R$ 2 milhões.

Para chegar a esse valor estimado, somou-se a quantidade observada de acompanhantes e respectivas rendas mensais, obtidas por meio de entrevistas feitas pela reportagem junto a pessoas que ganham a vida fazendo programas pela cidade.

A média deduzida para o mercado do sexo local ainda leva em consideração o movimento médio mensal dos motéis, além de parte do faturamento dos estabelecimentos comerciais ligados diretamente e declaradamente à venda de produtos eróticos consultados pela reportagem.

A sondagem estimada, realizada durante semana de agosto pelas ruas e por telefone, foi obtida sempre de forma declarada. Mas a cifra pode ser maior, em razão do caráter clandestino que envolve a prostituição.




Profissionais do sexo


De acordo com levantamento da Secretaria Municipal da Saúde, por meio da assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, nos seis primeiros meses do ano, o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), unidade de amparo e encaminhamento de exames sobre DST/Aids, foram feitos 337 atendimentos a pessoas declaradamente profissionais do sexo.

Entretanto, ainda de acordo com a prefeitura, não há como mensurar a quantidade exata de profissionais do sexo que procuram pelo serviço público, já que a mesma pessoa pode se consultar em mais de uma ocasião. A Polícia Militar também não apresenta números exatos da prática na cidade.

Durante uma semana, no mês de agosto, o JC percorreu alguns pontos de prostituição em Bauru e, de maneira informal, realizou uma contagem simbólica, sem valor oficial. Entre pontos nas ruas, envolvendo região central, avenidas de grande circulação, cercanias de rodovias, casas noturnas que não declaram a prostituição – muitas vezes velada, mas até com “conexão” a motéis - e até mesmo em bairro residencial, além de acompanhantes locais que anunciam na Internet (em torno de 60) foram contabilizados, extra-oficialmente, mais de 200 profissionais do sexo, atuando em Bauru.

Presentes em vários pontos da cidade, algumas dessas profissionais do sexo chegam a receber R$ 6 mil mensais pelo serviço, que podem incluir pacotes completos e até mesmo atendimento em domicílio.
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Cada um na sua


A faixa etária de clientes é variada, assim como opções disponíveis no mercado do sexo. Um travesti, de 31 anos, surpreende ao revelar qual é o perfil geral de seus clientes. “Em Bauru a maioria é de universitários”, afirma o profissional do sexo, que também atende em Araçatuba. “Lá são agricultores”, diferencia.

Ele diz faturar entre R$ 4 mil e R$ 4.500,00 por mês, apenas com os programas, agendados via Internet, em site específico com garotos, garotas e transexuais da cidade.

Orgulhoso pelas fotos exibidas na web, o travesti conta que atende em motéis, hotéis e até mesmo em domicílio, já que afirma possuir carro próprio para os programas, tudo para garantir a privacidade de quem solicita os serviços do acompanhante, assegura.

Entre a carteira de clientes, detalha, os mais variados perfis e profissões. “Atendo político, médico, advogado e policial”, confidencia, que já trabalhou na rua, mas não sente saudades de marcar ponto nas esquinas.

“Já fui roubada na rua”, comenta, ao se conformar com o que ficou para trás. “Problemas existem em todas as áreas de trabalho”, diz. “Em todo lugar e profissão tem alguém querendo puxar seu tapete”, divaga Tati, que sustenta a mãe, com quem divide o mesmo teto.

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Sexo é discutido de forma mais
aberta, inclusive entre pais e filhos



“Esse mundo está perdido”, diriam os mais tradicionais. Paradigmas quebrados à parte, a verdade é que o mundo, perdido ou não, mudou, principalmente conceitos. O que diriam nossos avós se entrassem numa loja em que tudo inspira sexo, desde géis lubrificantes até roupas que prometem quebrar a monotonia que tanto aflige os casais?

Fato é que os já consolidados sex shops parecem ter vindo realmente para ficar e caem no gosto de um leque cada vez mais variado de clientes, com diferentes idades e poder aquisitivo. Tanto é que as compras nas lojas do gênero chegam a reunir até mesmo mãe e filha, como visto num estabelecimento do Centro de Bauru pela reportagem.

Os clientes, apesar da abertura, ainda têm receio de conversar sobre o comportamento com a reportagem, mas a presença cada vez mais constante da família nesse universo é observada pelos próprios comerciantes.

“É comum principalmente entre mulheres, onde há uma maior cumplicidade”, comenta o empresário Rodolfo Marquezin. Segundo ele, independentemente da companhia na hora da compra de um artigo erótico ser de algum parente, 80% dos clientes é do sexo feminino. “É mais fácil para as mulheres buscarem algo que apimente o relacionamento”, observa. “Mulheres se adaptam mais fácil ao que é novo”, completa.

A confiança é tanta, acentua o comerciante, que muitas pessoas, com dúvidas sobre algum possível problema de saúde, acabam consultando o dono da loja ou funcionários. “Falamos para a pessoa ir ao médico, não tenha dúvida disso. Não é nossa função”, assegura.

Tanta procura resulta em lucros, razão pela qual o mercado erótico, enumera o empresário, cresce 15% ao ano no País. O cenário positivo, acrescenta, reflete-se também na região. Em apenas uma das lojas visitadas, o faturamento mensal de produtos eróticos beira a casa de R$ 20 mil.

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Mulher conta que voltou a se prostituir para pagar tratamento da filha drogada


Aos 45 anos, uma mulher entrevistada pelo JC é um exemplo de como o mundo da prostituição pode ser até de, relativamente, fácil de entrar, mas difícil de sair.

Após 3 anos ausente do sexo por dinheiro, ela teve que voltar a vender o corpo para, além de garantir o próprio sustento, bancar tratamento e dissabores ligados à filha de 22 anos, viciada em drogas.

“A situação não está fácil, faltam oportunidades”, lamenta ela, que, em média, fatura em torno de R$ 1.600,00 por mês, ao fazer entre quatro e cinco programas por semana.

“Acho que é razoável, mas estou procurando outra vida e tenho um trabalho engatilhado, mas não posso falar o que é para não me expor”, justifica. “Espero que, no máximo, em um ano eu possa mudar de vida”, vislumbra.

Ela começou a fazer programas ainda adolescente, mas por pouco tempo. Ela conta que retornou recentemente porque a necessidade falou mais alto.

Divorciada, ela diz que, caso estivesse com um companheiro, não se prostituiria. “Meus filhos (ela tem três) sabiam da minha vida passada, mas não sabem o que faço agora”, comenta ela, que costuma atender clientes mais velhos, que marcam os programas por telefone, expostos em anúncio de jornal.

“Não gosto de sair com molecada, porque eles abusam de álcool e drogas”, reprova. “Além disso, os homens mais velhos tratam a gente melhor”, diferencia.

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Mensalmente, Saúde registra entre 16 e 18 novos casos de aids em Bauru


Maior abertura e crescimento do próprio comércio - legal e clandestino - envolvendo o sexo torna riscos ainda mais latentes, principalmente de transmissão das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), incluindo o sempre aterrorizante vírus HIV.

Mesmo com maior aceitação do assunto, inclusive em ambiente familiar, a prevenção ainda se mantém ao nível dos antigos tabus. “Muitas pessoas ainda não se cuidam, colocam o prazer do momento acima da prevenção”, lamenta a médica infectologista Maristela Pastore Oliveira, do Centro de Referência em Doenças Infecciosas da Secretaria Municipal da Saúde.

Em Bauru, mensalmente, conforme estimativa do próprio centro, surgem entre 16 e 18 casos confirmados de aids, dentro da média nacional, estipula a médica. Na região, são em torno de 40.

Ainda são avaliados, também mensalmente, de 50 a 60 casos de possível contágio de outras DSTs, como sífilis, gonorreia e HPV, em estatística que engloba homens e mulheres. Especificamente, detalha a médica, são exatamente entre 25 a 30 suspeitas, entre os sexos. Os números, diferencia Maristela, não se restringem a contágio unicamente por via sexual. Usuários de drogas, aponta, também estão incluídos.