Transexual que ganhou visto após denunciar rede não pretende voltar ao Brasil

Mesmo sabendo da iniciativa do Ministério das Relações Exteriores para encorajar a volta de brasileiros que vivam em situação de risco no exterior, um transexual piauiense que ganhou visto de permanência na Itália após denunciar uma rede de prostituição afirma que não pretende retornar ao país.

C. A., de 28 anos, mora há quatro anos em Roma, onde desembarcou de forma ilegal em 2006, levado por uma rede de prostituição.

Segundo afirmou à BBC Brasil, ele pagou 12 mil euros (cerca de R$ 26 mil) à rede para entrar ilegalmente no país europeu.

Depois de ter passado cerca de três anos se prostituindo na Itália, C. A. decidiu denunciar a rede às autoridades, beneficiando-se da legislação que concede visto de permanência no país às vitimas que denunciarem quadrilhas de tráfico de seres humanos e redes de prostituição.
Após a denúncia, C. A. passou um período em um centro de identificação e expulsão de imigrantes irregulares e depois foi levado para uma casa de acolhimento temporário da associação italiana Ora D’Aria, especializada em assistência a vítimas de abusos, sobretudo transexuais.
C. A. deve permanecer no local até conseguir um emprego e alcançar autonomia financeira.
Retorno
Apesar das dificuldades, C. A. afirma que não pretende retornar ao Brasil.
“Estou bem aqui, tenho namorado, estou integrada e até regularizada. Meu sonho sempre foi deixar o Brasil e viver no exterior, principalmente na Itália. Aqui se vive melhor, embora no Brasil não tivesse dificuldades, pois minha família é de classe média”, disse.

Segundo C. A., a iniciativa do governo brasileiro só pode ser uma opção válida se houver um programa de inserção social aos imigrantes.

De fato, a cartilha a ser lançada pelo Itamaraty para orientar seus diplomatas a encorajar a volta de imigrantes brasileiros em situação de risco prevê que eles sejam aconselhados sobre programas sociais nos quais poderiam se enquadrar caso regressem ao país.


“Se o projeto for só repatriar, não há interesse. Deveria haver uma possibilidade da pessoa conseguir um emprego, pois muitas pessoas que vieram sofriam uma situação de preconceito e falta de trabalho no Brasil”, afirmou.

No caso dos transexuais, disse, a inserção é muito mais difícil devido ao preconceito.
“O transexual é visto principalmente como prostituta ou, no máximo, como profissional de beleza, tipo cabeleireiro. Se o governo der uma oportunidade de inserção para estas pessoas, tudo bem”, disse.

Na visão de C. A., o projeto do governo brasileiro pode despertar o interesse principalmente daqueles que já queriam sair do mundo da prostituição, embora muitos transexuais prefiram continuar nesta atividade, segundo ele.
“Muitas não querem voltar ao Brasil porque pretendem continuar na prostituição, com a ilusão de que se faz muito dinheiro, o que de certa forma é verdade, porque se ganha mais do que com um trabalho normal. Mas temos que levar em consideração os riscos”.

Transexuais

Na Itália, há cerca de 8 mil transexuais brasileiros, segundo Leila Daianis, presidente da associação Libélula, ONG especializada em assistência e orientação a imigrantes e transexuais.
Segundo Daianis, muitos transexuais voltariam ao Brasil, mas temem por sua segurança no país.
“Muitos voltariam, mas querem garantia de segurança, pois sofrem ameaças. Eles não poderiam ir para as cidades de suas famílias, mas deveriam ficar em um lugar secreto por um período”, disse Daianis à BBC Brasil.

Na opinião da ativista, além de estimular a volta por meio de programas de inserção no mundo do trabalho, o governo brasileiro deveria garantir proteção social aos transexuais e outras vítimas das redes de prostituição que decidem retornar.
“O Brasil deveria dar uma proteção social a estas pessoas, pois se chegarem lá sem terem nada, sendo ameaçadas pelos cafetões, acabam voltando para aquela vida, em um círculo vicioso”, disse.



13/07/2010 Veja esta notícia na página original
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