23.10.10

Ativista que representa no Reino Unido profissionais do sexo de todo o mundo quer que filmes pornôs mostrem atores colocando camisinha


Agência de Notícias da AIDS
24/10/2010

Agência de Noticias da AidsPor que você começou a trabalhar como garoto de programa?
ThierryPor curiosidade, para ter minha opinião sobre o trabalho sexual e não apenas aceitar o que a sociedade diz que devemos fazer com nosso corpo. Também porque eu era pobre e esse dinheiro me ajudou muito.

Qual o motivo da sua mudança para Londres?
Em Paris a polícia é repressora e violenta com os trabalhadores do sexo, enquanto em Londres eu sou protegido por ela. Além disso, no Reino Unido os gays são mais respeitados, há mais liberdade e menos preconceito.

É possível ganhar dinheiro como profissional do sexo?
Sim, mesmo com bastante competição. Eu não ganho muito, entre £500 e £1.500 por mês (equivalentes a R$1.400 e R$4.200) porque eu me dedico bastante ao ativismo e isso demanda tempo.

Onde os garotos de programa começam a trabalhar em Londres?
A maioria anuncia em sites e revistas gays. Conheço apenas uma casa de prostituição masculina, onde trabalham principalmente imigrantes da América Latina. O local muito exploratório.

Exploratório como?
Eles recebem apenas metade do valor do programa, que é £80 (cerca de R$225). Além disso, precisam competir entre si para conseguir clientes. Se não fizerem nenhum programa, não recebem nada, nem transporte, nem alimentação. Há organizações que tentam ajudá-los, mas é difícil porque eles não têm onde receber os clientes. A falta do inglês também dificulta um trabalho independente.

Quando você começou na militância?
Comecei na adolescência, reivindicando direitos dos homossexuais. Quase fui expulso da escola porque os pais dos outros alunos não aceitavam meu posicionamento. Aos 18 anos de idade entrei na Act Up-Paris, uma organização de combate ao HIV. Mais tarde fui para uma conferência europeia de trabalhadores do sexo e me envolvi mais com a militância no trabalho sexual.

Quais são as suas principais reivindicações?
Eu suponho que nós exigimos a mesma coisa em todo o mundo: a descriminalização da indústria do sexo, o reconhecimento do trabalho sexual como profissão e a não-discriminação dos profissionais em seus direitos de cidadãos e trabalhadores.

O que você acha de filmes pornôs com sexo sem camisinha?
Atualmente há uma pressão econômica para fazer filmes bareback*. As empresas fazem um monte de dinheiro sobre nós e não dão a mínima se o os trabalhadores acabarão com HIV ou outras DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis). É muito chocante porque o HIV se tornou um negócio e as pessoas estão mais interessadas em ganhar dinheiro com a epidemia em vez de erradicá-la.

Você trabalha sem preservativo?
Eu sempre recuso sexo sem camisinha. É um respeito por mim e pelos outros homens gays. As únicas vezes em que deixei de usar camisinha foram quando eu amava muito um homem que tinha poder sobre mim, mas me senti extremamente vulnerável.

Por que você defende que nos filmes pornôs os homens devem aparecer colocando preservativo?
Para mostrar que colocar camisinha pode ser sexy incentivar o uso. Odeio o fato do preservativo aparecer como mágica em filmes e a gente ter que fingir que ele não está lá.

E por que isso não acontece?
Diferentes segmentos da comunidade gay preferem permanecer neutros nessa discussão para não perder mercado. Além da indústria pornográfica, fazem parte desse jogo os clubes que promovem festas bareback, as lojas que vendem esses filmes, a mídia gay que aceita anúncios de produtos bareback. Por isso é importante que os trabalhadores do sexo sejam motivados a se envolverem no movimento de combate ao HIV. Nós podemos fazer prevenção na prática.

*A expressão Bareback vem do inglês cavalgar sem sela. É usada para caracterizar a prática sexual, sem camisinha, num grupo, onde geralmente um participante da urgia é portador do HIV.

Fábio Serrato, de Londres

Dica de Entrevista
Thierry Schaffauser
E-mail: zezetta.star@gmx.com

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