21.10.10

Criou Deus macho que prefere macho e fêmea que prefere fêmea


Mais de cem homossexuais são mortos anualmente por crimes de ódio e este tema fica fora da campanha presidencial, tal situação foi veiculada no último final de semana por um jornal de grande circulação nacional em tom de clara preocupação com o desenrolar dos acontecimentos já que está havendo um considerável retrocesso em termos de aceitação da comunidade LGBT. Por derradeiro, as pesquisas mostram um aumento de 62% de crimes de ódio aos homossexuais desde 2007 até agora.

Confesso que o que mais me preocupa nesta trágica situação é indução ao suicídio, já que há um evidente fomento por parte de setores religiosos para que homossexuais caminhem para a morte. Afinal, se eles (gays) não podem ser o que são passam a crer que não há outro jeito senão morrer fisicamente ou, como outros, morrer emocionalmente sofrendo durante toda a vida por se acharem uma anomalia. Pesquisas norte-americanas já revelaram que 30% dos adolescentes que cometiam suicídio nos EUA o faziam por conta de serem gays.

Imagine, por exemplo, um negro ser demonizado e patologizado bem como ser violentado emocionalmente todos os dias por causa da sua cor. Entretanto, já existem em nosso país leis contra o racismo que protegem este cidadão negro, mas a recíproca não é verdadeira em se tratando de homossexuais.

Deus fez macho e fêmea e pela mesma Bíblia encontramos todo respaldo para dizer que Deus fez também machos que preferencialmente se atraem por outros machos e fez fêmeas que preferencialmente se atraem por outras fêmeas. Qual a dificuldade em entender esta questão?

Convém ressaltar que amar e aceitar o gay como é não significa qualquer ameaça a família, pois formamos famílias por vezes muito mais estruturadas que muitos lares ditos “normais”, já que na última campanha alguns parlamentares homofóbicos diziam lutar contra os gays porque defendiam a “família normal”. Será meu companheiro pastor Fábio e eu não somos “normais” uma vez que constituímos um novo núcleo familiar e inclusive estamos em processo de adoção conjunta de uma criança.

Por outro lado, os homossexuais não constituem ameaça a procriação precisamente porque Deus os constituiu enquanto minoria e assim podemos seguir os planos de Deus normalmente. Não queremos revolucionar o mundo. Mas queremos transformá-lo através da inclusão, não da supressão de uma maioria por uma minoria.

Minoria expressiva e que enquanto tal possui os mesmos direitos da maioria justamente por que no jogo democrático somos plurais e singulares ao mesmo tempo: “unum et pluribum!”. As diferenças nos singularizam, a democracia nos torna cidadãos e o Evangelho nos torna irmãos!

O que fazer quando os maiores motivadores de abusos contra homossexuais são os religiosos homofóbicos? Há estudos importantes que vem sendo desenvolvidos, especialmente no Museu Nacional, de âmbito sociológico e antropológico no sentido de comprovar a obra destrutiva que a homofobia religiosa, especialmente no setor evangélico, vem promovendo. Calar-se diante disso seria mais do que covardia, seria um crime.

Claro que não é fácil ser diferente! Mais difícil é assumir publicamente essa diferença em se tratando de homossexualidade devido ao preconceito. Às vezes me perguntam como conseguir tal proeza.

Na minha experiência pessoal falar da minha orientação sexual publicamente foi um meio de protestar contra o sistema da homofobia religiosa, sobretudo “evangélica”. Um protesto que começou há alguns anos, após um pedido de um jovem rapaz que me solicitou para que nunca mais me calasse, já que se ele soubesse deste amor de Deus a todos, sem preconceitos, estaria livre das marcas da homofobia religiosa estampadas em ambos os braços na forma de visíveis cicatrizes de navalha resultantes de uma terrível tentativa de suicídio após uma terapia evangélica para “cura” de homossexuais. Daquele encontro prometi a mim mesmo que jamais me calaria doesse a quem doer.

Desta forma, percebi que enquanto nos calássemos outros homossexuais estariam sofrendo e morrendo daquela mesma forma, por isso que na Igreja Cristã Contemporânea trabalhamos tentando reparar todo este mal feito pela homofobia religiosa a centenas de pessoas LGBT que tiveram as suas vidas destruídas pela religião.

Assim, nestes quatro anos de existência nossa denominação vem corajosamente denunciando a homofobia religiosa, mas não apenas isso; vem igualmente resgatando em progressão geométrica uma enorme quantidade de homossexuais que são fria e cruelmente excluídos de suas congregações, passando por transtornos pós-traumáticos que destroem por completo sua autoestima e os conduz ao suicídio.

Muitas dessas pessoas chegam nas Igrejas Cristã Contemporânea, oriundas desses meios religiosos, absolutamente flageladas, e nós as acolhemos defendendo um amor de Deus a todos, sem preconceitos de qualquer espécie.

Desta forma, desde nossa fundação temos garantido o direito de homossexuais que desejam expressar sua identidade religiosa, em uma sociedade que entendemos dever ser democrática, pluralista e sob o ordenamento jurídico de um Estado Laico.

Explico melhor: a Igreja Cristã Contemporânea não defende que o mundo seja gay, nem deseja que aqueles que sejam heterossexuais tenham a sua orientação sexual revertida. Já os nossos detratores se pudessem nos imporiam (como ainda fazem na maioria de suas Igrejas) “tratamentos” violentíssimos de reversão que deixam traumas permanentes nas pessoas.

Se não defendemos um mundo gay, o que defendemos? Um mundo onde todos possam viver em paz e solidariedade, e onde as minorias como a nossa possam ser respeitadas. Ou seja: o mundo não é gay, mas nós somos e exigimos respeito.

É o tempo de denunciarmos todas as práticas inaceitáveis de preconceito, discriminação e homofobia religiosa que são impunemente expressadas por religiosos homofóbicos ofendendo intoleravelmente a honra e dignidade de toda a comunidade LGBT.

Precisamos dar um basta nesta perigosa influência destes formadores de opinião que praticam preconceito, segregação e reação homofóbica em suas próprias igrejas, e dentro das quais possivelmente encontram-se cidadãos LGBT sem qualquer amparo ou possibilidade de expressão, devido a sua orientação sexual.

Vamos dar as mãos e lutar para que sejam protegidos os direitos de cidadãos LGBT de forma a exercerem sua cidadania plena, independentemente de sua orientação sexual.

Pastor Marcos Gladstone
Fundador e presidente das Igrejas Cristã Contemporânea

Postado em 18/10/2010

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