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Estudo aponta mudança no perfil de portadores de HIV/Aids em Santa Catarina

Do Diário Catarinense
23/10/2010
Ângela Bastos | angela.bastos@diario.com.br

Incidência do vírus é grande no interior do Estado e em heterossexuais com relações estáveis




Iraci Batista Silva afirma que população precisa se conscientizar que Aids não tem cara
Foto:Guto Kuerten


Santa Catarina registrou o primeiro caso de Aids em 1984. Era um homem, 34 anos, homossexual, que vivia fora do Estado e voltou para perto da família, em Chapecó. Nestes 26 anos, o perfil do contaminado mudou. Antes, estavam no topo das pesquisas homossexuais, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis. A maioria vivia em grandes cidades, principalmente no litoral.

Atualmente, é grande a incidência do vírus entre homens e mulheres heterossexuais que não usam drogas e mantêm relações estáveis. Uma mudança radical de perfil. Neste ano, dois municípios tiveram notificados casos de Aids pela primeira vez. Localizados no Alto Vale do Itajaí e Extremo-Oeste, Mirim Doce e Riqueza entraram para o mapa das 251 entre as 293 cidades catarinenses com registros da doença.

É o que os técnicos chamam de interiorização da epidemia, um retrato do que ocorre no país. Santa Catarina tem, até o momento, 23.162 casos notificados de Aids, e, a cada ano, novos casos e infecções associadas são diagnosticados.

— Existem tratamentos eficazes para a Aids, mas não há cura. A população precisa se conscientizar que a Aids não tem cara — observa Iraci Batista Silva, gerente de Vigilância das Dsts/HIV/Aids da Vigilância Epidemiológica.

Entre 1986 e 1989, a taxa média de letalidade era de 29% entre os casos registrados da doença. Em 1994, o maior índice apresentado até os dias atuais: 51,5%. A média entre os anos de 1986 e 2009 é de 36,9%.

Na faixa etária do adulto jovem, segundo dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), a Aids figura entre as principais causas de mortalidade, tendo sido a maior causa de morte das mulheres na faixa etária de 20 a 49 anos no período de 1996 a 2009. Supera, inclusive, os óbitos por câncer de mama.

Prevenção e apoio

Para Iraci, intensificar a prevenção é a chave para combater o vírus, através de intervenções específicas na área da saúde e ações sociais. Garantir o acesso das pessoas à prevenção, ao tratamento e aos serviços de apoio, bem como melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/Aids é fundamental para o controle da doença.

— Hoje, Aids não é uma sentença de morte. Com medicação e tratamento correto, a pessoa contaminada pode viver muitos anos. Além disso, apesar de todas as pesquisas, não existe nada que aponte para a cura dentro de um breve espaço de tempo — disse Iraci.

A respeito da interiorizarão da epidemia, as previsões não são boas:

— Vai chegar um tempo em que todos os municípios terão a doença. O problema vai avançar — diz a coordenadora das Dsts/HIV/Aids.

A presença da doença em pequenos municípios tem explicações. Uma delas é a constante movimentação entre as regiões.

— Este vaivém coloca pessoas em contato. No Oeste do Estado, observa, há um grande número de profissionais caminhoneiros. A cultura masculina leva à "compra de sexo", muitas vezes sem proteção. Por isso, temos casos de mulheres com um único parceiro contaminadas — explica Iraci.

Camisinha, entre o saber e o uso

A última pesquisa do Ministério da Saúde sobre comportamento sexual do brasileiro ouviu 8 mil entrevistados nas cinco regiões do país. Foram homens e mulheres entre 15 e 64 anos. De acordo com o estudo, 77% dessa população (66,7 milhões) teve relações sexuais nos 12 meses que antecederam a pesquisa, finalizada no final de 2008. As principais diferenças de comportamento estão entre homens e mulheres.

Entre eles, 13,2% tiveram mais de cinco parceiros casuais no ano anterior à pesquisa; entre elas, esse índice é três vezes menor (4,1%). Dez por cento deles tiveram, pelo menos, um parceiro do mesmo sexo na vida, enquanto só 5,2% delas já fizeram sexo com outras mulheres. A vida sexual deles também começa mais cedo: 36,9% deles tiveram relações sexuais antes dos 15 anos; entre elas, esse índice cai para menos da metade, 17%.

A pesquisa constatou ainda que quase metade da população (45,7%) faz uso consistente do preservativo com seus parceiros casuais (usou em todas as relações eventuais nos últimos 12 meses). As principais diferenças estão entre homens e mulheres e por faixa etária. Homens usam mais preservativos do que as mulheres em todas as situações.

Informação sobre infecção e prevenção

A população brasileira tem um elevado índice de conhecimento sobre as formas de infecção e de prevenção da Aids — mais de 95% da população sabe que o uso do preservativo é a melhor maneira de evitar a infecção. O conhecimento é maior entre pessoas de maior escolaridade. Mas mesmo entre aqueles com primário incompleto, o preservativo é bastante conhecido. Além disso, 90% dos brasileiros afirmaram saber que a Aids ainda não tem cura.

A comparação dos resultados de 2008 com os da mesma pesquisa realizada em 2004 acenderam o alerta para o Ministério da Saúde: o brasileiro tem feito mais sexo casual. Em 2004, 4% das pessoas haviam tido mais de cinco parceiros casuais no ano anterior. Em 2008, esse índice subiu para 9,3%. A pesquisa identificou, também, uma tendência na queda no uso do preservativo. Passou de 51,6% em todas as parcerias eventuais, em 2004, para 46,5% em 2008.


Pesquisa do Ministério da Saúde

Comportamento do brasileiro

— Homens usam preservativos 40% a mais do que as mulheres.

— Quanto mais jovem, maior a probabilidade de uso de preservativo (a cada ano, diminui 1% a chance de o indivíduo usar preservativo).

— Quem teve mais de cinco parceiros casuais nos últimos 12 meses tem quase duas vezes mais chance de usar preservativo do que os que não tiveram.

— Quem já pegou preservativo distribuído gratuitamente tem duas vezes mais chance de usá-lo do que aqueles que nunca pegaram.
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