24.10.10

Portadores do HIV descobrem que as mutações voltam a assombrar

Do Correio Braziliense - Renata Mariz

Publicação: 24/10/2010 08:19

Da sentença de morte em poucos meses à promessa de uma vida mais longa e de qualidade, é inegável que o avanço dos medicamentos nas duas últimas décadas mudou completamente a visão de futuro dos pacientes com HIV. Só que as sucessivas mutações do vírus, aliadas à resistência natural que um remédio provoca depois de anos de uso, tem levado uma parte dos soropositivos a reviver o pavor que a doença mortal despertou no mundo ao ser descoberta. Paulo* faz parte desse contingente. "Estou na última cartada das drogas, a um passo de não ter mais possibilidades", lamenta o administrador de empresas de 42 anos que luta há 16 contra a Aids.

Na mesma situação de Paulo, o Ministério da Saúde já contabiliza cerca de 5 mil pessoas no Brasil. São os pacientes que chegaram às últimas drogas disponíveis - a chamada terceira linha do tratamento. "Estão nessa fase aqueles considerados multifalhados, que não conseguem diminuir a carga viral com os demais esquemas terapêuticos existentes", explica Ronaldo Hallal, assessor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

Dos 19 antirretrovirais que o governo federal distribui atualmente, três fazem parte da terceira linha. "O paciente que usa ao menos um deles já está na última etapa e é uma parcela bastante importante para nós, visto que apresenta condições de saúde mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, risco de transmitir esses vírus muito resistente a outras pessoas", afirma Hallal.

O pouco tempo de uso dessas três drogas, entretanto, deixa em aberto a real eficácia delas. O raltegravir, por exemplo, foi introduzido no Brasil em janeiro de 2009. E o darunavir, em 2008. Só a enfuvirtida é mais antiga, de 2005. "Não dá para avaliar ainda o impacto a médio prazo, mas verificamos que 80% dos pacientes têm supressão do vírus em poucos meses. Com o raltegravir, esse índice chega a 90%. Alguns pacientes, realmente, não têm nenhuma opção terapêutica e a saída é ingressar em algum projeto de pesquisa", informa Hallal.

O especialista não soube dizer quantas drogas são testadas hoje no país. O Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, onde todos os experimentos têm de ser registrados, se limitou a afirmar que houve 100 pesquisas aprovadas de 2007 a 2009 relacionadas ao HIV. Paulo teme que esse seja o seu próximo passo, tornar-se cobaia de alguma droga experimental. Desde que recebeu o diagnóstico do HIV, em 1994, ele convive com as falhas terapêuticas. "Meu histórico é de um vírus muito resistente sempre. Eu começava um esquema terapêutico e dali a oito meses a carga viral aumentava", conta o homem.

Mas nem todos os doentes apresentam os problemas logo de início, como Paulo. Sônia Maria Geraldes, infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, explica que a falha é muito comum em pacientes antigos que foram submetidos ao AZT e a outros medicamentos pioneiros. "Eles ficaram expostos a essas drogas menos modernas do que as atuais, culminando na resistência. Mas há também os pacientes que, com pouco tempo de terapia, desenvolvem o que chamamos de supervírus. A falta de adesão ao tratamento é outro fator que contribui", diz a médica.

O encaminhamento para as últimas drogas é algo tão sério, delicado e caro que só pode ser feito depois que o paciente se submete a um teste de genotipagem. "Por meio desse exame conseguimos saber a genética do vírus, que tipo de resistência e mutações ele tem e como poderá responder melhor ao tratamento", explica o médico Marcos Antonio Cyrillo, da Sociedade Brasileira de Infectologia. O resultado passa por uma câmara técnica autorizadora, formada por médicos treinados pelo Ministério da Saúde. Eles são os únicos que podem indicar a terapia com um ou mais dos três antiretrovirais da terceira linha.

Orçamento
Na última semana, o governo introduziu uma quarta droga de terceira linha. As três medicações já utilizadas nos pacientes da terceira linha consomem 25% de todo o orçamento do governo federal com os antirretrovirais para HIV. Enquanto o efavirenz, medicamento produzido no Brasil, sai a US$ 0,59 por paciente ao dia, o raltegravir fica em US$ 16. Apesar do custo elevado, o Ministério da Saúde ressalta que o rígido protocolo de encaminhamento de pacientes para a última terapia tem como foco principal evitar a banalização do tratamento. "É preciso identificar claramente o motivo da falha para saber se o paciente reagirá às drogas", defende Hallal.

Com os soropositivos vivendo cada vez mais, surge a dúvida se o contingente de pessoas na última opção de tratamento aumentará ao longo dos anos. Hallal não diz que sim nem que não. "É uma incógnita responder qual a tendência, se crescerá ou diminuirá o número de pacientes. O certo é que sempre teremos pessoas com dificuldade no tratamento", afirma o assessor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.

* Nome fictício a pedido do entrevistado.

Em busca de justiça
A esperança de muitos pacientes e a sobrevivência de alguns poucos que, com dificuldade, conseguem dinheiro para comprar, estão em medicamentos não fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Pelo menos dois deles, o maraviroc e o dipranavir, já têm registro na Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e só são obtidos gratuitamente quando algum paciente aciona a Justiça com sucesso. Em 2009, só em relação ao maraviroc, foram 47 demandas judiciais.

Caso de Paulo*, que toma o maraviroc há um ano. Pela segunda vez, ao longo de aproximadamente uma década e meia de tratamento, ele conseguiu diminuir significativamente sua carga viral por mais de um ano. Apesar da decisão judicial, o homem convive com atrasos no fornecimento do remédio e a angústia de ter que comprá-lo para garantir a própria sobrevivência. "Temos que apelar para família, amigos, pois um frasco para um mês custa R$ 2,3 mil, fica pesado para qualquer um. Dez dias sem tomar o medicamento é o suficiente para começar a adoecer e até morrer", conta.

Além da preocupação com a própria saúde, o administrador lamenta a o desgaste e a humilhação de ficar cobrando o remédio da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, que faz a distribuição todos os meses. "Preciso lembrar os funcionários do meu problema, aí levo a decisão judicial de um setor para outro, e fico cobrando diariamente. É muito difícil. Por que não incluir logo esse medicamento entre os antiretrovirais fornecidos periodicamente? Todo mês é a angústia de não saber se vai ter."

Ronaldo Hallal, assessor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, justifica a não inclusão dos medicamentos por questões técnicas. No ensaio feito no Brasil com o dipranavir, segundo ele, houve muitos casos de hemorragia. Já o maraviroc, diz Hallal, só pode ser usado depois de um teste conduzido nos Estados Unidos pela própria companhia farmacêutica que o comercializa. "Além de um possível conflito de interesses, estimamos que apenas 30% dos pacientes da terceira linha poderiam usá-lo", justifica.

Marcos Antonio Cyrillo, da Sociedade Brasileira de Infectologia, vê com bons olhos as novas drogas para pacientes resistentes aos tratamentos atuais, embora os resultados não sejam completamente conhecidos. "Não é que sejam experimentais. De fato, mesmo lá fora os efeitos ainda não são totalmente conhecidos. Mas é assim que as drogas surgem", diz. Paulo clama por mais atenção. %u201CEspero que invistam mais em medicamentos novos. Esses são os últimos e não ouvimos falar de novas drogas que deem uma luz de esperança às pessoas que estão chegando ao fim do túnel.

Buscar lá fora
O Ministério da Saúde incluiu, a partir deste mês, um novo medicamento para pacientes com Aids que apresentam resistência a antiretrovirais. A etravirina é um medicamento de terceira linha importado. É usado no Canadá e na Inglaterra. Após a sua inclusão, os pacientes com HIV passarão a contar com 20 diferentes medicamentos para tratar a doença. A primeira compra de 3.360 frascos de etravirina custará R$ 4,2 milhões e atenderá 500 pacientes. O orçamento total para remédios contra a Aids é de R$ 780 milhões em 2010.

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