27.11.10

Mais de 50 mil haitianos vivem em condições precárias em acampamento perto de Porto Príncipe


Vitor Abdala 26/11/2010
Enviado Especial da Agência Brasil


Porto Príncipe – Dez meses depois do terremoto que matou milhares de pessoas no Haiti e desabrigou 1,3 milhão, grande parte da população continua morando nos cerca de 900 acampamentos espalhados pela região de Porto Príncipe. No que já foi uma praça pública na localidade de Delmas, região metropolitana da capital, cerca de 50 mil pessoas vivem em tendas ou em barracos de latão, lona, pano e até plástico.

No Acampamento Jean Marie Vincent, o esgoto corre por valões a céu aberto, os banheiros são coletivos e os banhos são tomados em pequenos compartimentos, com piso de madeira e paredes de lona, sem qualquer ligação com redes coletoras de esgoto. Além disso, o lixo fica espalhado pelo chão e a água potável, distribuída por organizações não governamentais e organismos internacionais, nem sempre é suficiente para todo mundo.

“Aqui não tem recolhimento regular de lixo e nem fornecimento suficiente de água potável. O esgoto corre a céu aberto. Tudo isso é grande fonte de doença. No caso do cólera, aqui tem todo o ambiente favorável para a disseminação da epidemia”, disse o coronel Valdir Campelo, do 1º Batalhão de Infantaria da Força de Paz brasileira no Haiti.

Segundo o coronel, o acampamento é patrulhado 24 horas pela Polícia Nacional do Haiti, pela polícia das Nações Unidas e pelas tropas brasileiras. Apesar disso, há ocorrências criminais, como roubos e furtos.

Beloné Michel, de 56 anos, vai ao encontro dos militares brasileiros e relata como perdeu os parentes no terremoto. “Minha família toda morreu no terremoto. Estou aqui sozinho no acampamento”. Depois, canta uma música em francês.

Mais adiante, a reportagem da Agência Brasil é abordada por um jovem haitiano. Ele fala português e se identifica como Pablo, diz ter 17 anos e que dorme ao relento porque não tem uma tenda no acampamento. Sua família mora na Ilha de Gonave, perto de Porto Príncipe. “Vim para Porto Príncipe procurar emprego. Mas, até agora, não consegui nada. O dinheiro e a comida eu consigo por meio dos soldados brasileiros. Brasileiro é 'sangue bom'”, numa gíria carioca. “Mas tem dias que eu não como nada”, completou.

Quando está com sede, Pablo compra água embalada em saco plástico, vendida em toda a cidade, mas que não oferece proteção contra o cólera, já que as pessoas precisam colocar a boca na embalagem para bebê-la. “Compro três saquinhos por cinco gourdes [aproximadamente 20 centavos de real]”, diz o jovem.

Pablo teme ser contaminado pelo cólera, mas não pode fazer muita coisa para evitar a epidemia, em meio ao ambiente em que vive. “Tento lavar sempre minhas mãos”, afirmou. Ele nunca frequentou uma escola, mas diz que fala cinco idiomas.

Edição: Aécio Amado

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