3.12.10

Homofobia - As dificuldades vivenciadas pelos professores (06'18")


Resumo
Na segunda reportagem, você vai saber como os professores enfrentam o problema e as dificuldades no dia a dia.
Quando o assunto é homofobia, muitas vezes os educadores não reconhecem que essa é uma questão que está dentro das escolas, como destaca Margarita Díaz, coordenadora de uma pesquisa que constatou o preconceito no ambiente escolar.

"Essa população, ela é invisível na escola, ela não é reconhecida. As pessoas, quando a gente perguntava: tem estudante gay, tem estudante lésbica? O que respondiam era: não, não tem, mas todo mundo conhecia alguém, conhecia em outras escolas, mas nessa escola era negada a existência. Os estudantes reconheciam muito mais a existência de estudantes gays e lésbicas do que os educadores ou diretores ou autoridades, digamos educacionais."

Esse estudo faz parte do projeto "Escola sem Homofobia", financiado pelo Ministério da Educação.

Um dos parceiros é a ONG Pathfinder do Brasil, que atua na área de saúde coletiva. Carlos Laudari trabalha na ONG, é médico e relata que chegou a ouvir uma professora dizer que tinha um aluno de seis anos que era gay. Para ele, isso mostra o despreparo de boa parte dos professores.

"A criança de seis anos, só porque ele fala eventualmente afeminado, eu nem sei se aquele menino vai ser gay, certo? O preconceito é tão grande, se você é macho, desde seis anos você precisa ser machinho, então você vê até que ponto é o despreparo dos nossos professores. Essa criança, ela vai chegar em casa, mãe, o que é ser gay? Ela não sabe. E a professora já está definindo o futuro, o destino dessa criança."

Em diversos pontos do Brasil já existem iniciativas de capacitação de professores para a temática da diversidade sexual. Na UFRJ, um projeto vai até as escolas públicas estaduais para trabalhar com os educadores.

O coordenador Alexandre Bortolini relata que os participantes mostram dificuldades quando o assunto são os comportamentos esperados para garotas e rapazes. O que incomoda é a visão de como um menino ou uma menina deve se comportar.

"Quando a gente faz oficinas em escolas, muito do que a gente escuta dos professores e acho que todo mundo já ouviu, já falou isso provavelmente em algum momento é: não, não tem problema de ter um aluno gay, mas ele precisa se vestir daquele jeito, ele precisa andar daquele jeito? Na verdade, o que esse professor está dizendo é: ele precisa aparentar essa homossexualidade? O que mais incomoda esses educadores, a impressão que a gente tem, não tem a ver exatamente com que esse aluno está indo para cama ou não, por quem ele está apaixonado ou não, tem a ver com como ele está se comportando dentro desses padrões, dentro dessas normas de gênero."

Alexandre aponta também que muitos professores admitem que têm preconceito, mas gostariam de lidar com a questão de uma outra forma. Para esses, ele recomenda que busquem orientação.

"Em muitos momentos é melhor que aquela professora, aquele professor, não aja diante daquele aluno que agir errado, não tem nenhum problema em eu admitir, olha, não sei o que fazer. Olha, eu estou confuso, estou angustiado. O que eu não posso é ficar imóvel, dizer eu não sei o que fazer, então não faço nada e fico quieto na minha."

Na avaliação do secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, André Lázaro, a dificuldade maior está na mudança de postura pessoal dos educadores. Mais além dos materiais educativos enviados pelo Ministério, a questão passa por mudança de valores.

"Quando se dá uma aula de física, de matemática, você tem que entender uma lógica e ser capaz de responder um problema sobre ela. Quando você dá uma aula sobre este assunto, não se trata só da informação, é também atitude, valor e o comportamento, e o processo de mudar comportamento, de valores e atitudes é um processo muito complexo, não basta informação."

Para André Lázaro, na questão da homofobia é preciso redundar. Falar a respeito, repetir, falar mais uma vez. Essa é a proposta do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, que publicou uma análise sobre os livros didáticos usados nas escolas públicas.

O estudo atestou que os livros não mostram ofensas ou julgamentos sobre homossexuais. No entanto, Tatiana Lionço, uma das coordenadoras do projeto, avalia que o material é insuficiente para conter a homofobia.

"A nossa sugestão e a recomendação que a gente faz é que o governo assuma essa tarefa de não apenas excluir discriminação, mas de afirmativamente combater o preconceito por meio da afirmação da diversidade sexual nos livros. Assim como é feito com a diversidade étnico-racial, com as questões de deficiência e da desigualdade de gênero."

Em se tratando de homofobia, outra questão delicada dentro da escola é quando o professor é gay ou lésbica, como conta um professor da rede estadual de São Paulo.

"Eu sou homossexual e uma certa vez me questionaram na escola: 'professor, comentam, às vezes, e eu achei que era melhor perguntar pra você: você é homossexual?' Não, eu respondi e isso me deixou numa crise de identidade tremenda."

O professor esteve presente à audiência pública na Câmara sobre homofobia nas escolas. Ele destaca que essa é uma questão recente e com poucos debates na sociedade. E reconhece que ainda não tem clareza de como proceder dentro da escola.

Carlos Laudari, que integra o projeto Escola sem Homofobia, se mostra realista ao falar dessa situação.

"Um professor gay que convive num ambiente onde ele sabe que algum elemento é conservador, tal, ele pode perder o emprego. Por mais correto que ele seja, se ele falar que é gay, ele já vai ser acusado de ser pedófilo. Se ele fica na sala explicando para o menino mais tarde, ele já está querendo abusar do menino."

A cautela dos professores tem outra razão mais grave. Nos últimos meses, aconteceram vários casos de agressões físicas e verbais com motivação homofóbica. Alguns casos se deram dentro de universidades federais.

De Brasília, Daniele Lessa

Da Rádio Câmara
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

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