3.12.10

Homofobia - Pesquisa revela preconceito nas escolas (06'31")


Resumo
A escola é um ambiente hostil com a população de lésbicas, gays, travestis e transexuais. Essa é a conclusão de uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Educação. Nesta semana, o programa Reportagem Especial apresenta três matérias sobre esse tema. Como professores e alunos lidam com a diversidade sexual e quais os desafios para os educadores. Confira a primeira reportagem desta série sobre homofobia nas escolas, com a repórter Daniele Lessa.

Constantino Dias ainda se lembra do dia em que estava em sala de aula e um professor resolveu fazer uma análise de sua vida.

"Como eu tenho ascendência indígena, existe sobre mim os três estigmas do preconceito: que possivelmente nunca daria certo como pessoa, porque além de pobre e índio, eu também era gay. Então isso ficou marcado na minha época de faculdade, essa fala dele."

Esse fato aconteceu nos anos 90. Mas bem poderia ter sido em 2010. Uma pesquisa realizada em 11 capitais brasileiras mostra que a homofobia é uma realidade nas escolas do 6º ao 9º ano, como destaca a coordenadora do estudo, Margarita Díaz.

"O foco da pesquisa era ver se havia homofobia, a resposta é sim. Há muita homofobia nas escolas e essa homofobia muitas vezes é naturalizada, muitas piadas que se fazem para gays, para lésbicas, elas aparecem como uma brincadeirinha, eles gostam de brincar, mas não é nada demais. Então não é dada a importância que tem uma brincadeira, não é vista como um ato homofóbico."

A pesquisa faz parte do programa Escola sem Homofobia, do Ministério da Educação. O projeto confeccionou também material didático e vídeos sobre a temática da diversidade sexual.

Depois de 1.400 entrevistas com toda a comunidade escolar, indo do estudante à merendeira, passando pelas secretarias estaduais de educação, Margarita Díaz aponta que a visão religiosa é muito presente no discurso da discriminação.

"É visto como uma doença, como uma perversão, como um pecado. Quando a gente perguntava, inclusive sobre gays, lésbicas ou travestis, era uma linguagem muito agressiva, desde que é pecado, é coisa do demônio, educadores e mesmo estudantes que vão repetindo o discurso adulto, é dessa maneira."

O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, André Lázaro, alega que o ministério está fazendo a sua parte, mas reconhece que esse é um trabalho que está apenas no início.

"Nós temos que trabalhar na formação de professores, enfrentar os diversos preconceitos, contribuir para que a escola seja uma instância libertadora e ir em frente. O preconceito é muito antigo no Brasil e quando ele se alia ao fundamentalismo religioso de qualquer matriz, ele ganha um status de verdade que é assustador."

A Comissão de Legislação Participativa da Câmara realizou audiência pública sobre a homofobia nas escolas.

O presidente da comissão, deputado Paulo Pimenta, do PT gaúcho, destaca que é um equívoco pensar que a escola é sempre um local que cultiva o respeito à diversidade.

"Que a escola não só muitas vezes reproduz, mas é também um espaço de construção de valores homofóbicos, onde você encontra práticas discriminadoras e preconceituosas no momento da formação e da afirmação da personalidade da criança e do adolescente."

Ao mesmo tempo, a homofobia se coloca dentro de um contexto social mais amplo que a escola. Os próprios pais discriminam e rechaçam a possibilidade de que seus filhos convivam com colegas homossexuais.

"Você vê manifestação de pais, que é mais grave, e as pesquisas mostram isso se dirigindo às escolas e dizendo: eu não quero isso na sala de aula do meu filho, um homossexual."

E como trabalhar essa questão que questiona os conceitos de masculino e feminino que as pessoas aprendem desde a infância? Especialistas mencionam que passa pela divulgação de informações, pelo debate social e também por uma reavaliação de crenças pessoais. A professora Mary Neide Figueiró, da Universidade Estadual de Londrina, tem uma sugestão:

"A proposta que eu fiz é que o MEC estude bem a distribuição desses materiais para as bibliotecas das universidades e, em especial, das públicas, vai subsidiar o nosso trabalho. A gente acompanha, a gente sabe o que o MEC fornece nas escolas, mas aí nós teríamos um acesso muito mais fácil estando nas nossas bibliotecas."

Já Luma Andrade, que é travesti e doutoranda em educação na Universidade Federal do Ceará, avalia que material didático é importante, mas que é um erro esperar que o MEC ofereça todas as diretrizes. Para ela, o preconceito e a diversidade sexual devem ser trabalhados dentro da realidade de cada escola.

"Nós não podemos trabalhar com padrão. Uma forma de trabalhar um é a mesma forma de trabalhar outro. Primeiro que tem que se conhecer essas realidades, qual é a realidade da escola, o que eu posso trabalhar? O que a escola desconhece? Por que existem escolas que já estão bem avançadas, nós não podemos negar isso também."

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto Diversidade Sexual na Escola capacita professores da rede pública estadual. O coordenador Alexandre Bortolini destaca que reavaliar crenças pessoais também faz parte do trabalho para conter a homofobia.

"Além de informação, além de conteúdo, além de conceitos, além de tudo isso, tem uma mudança de postura pessoal que não tem a ver só com homossexuais, com hétero, com negros ou com quem quer que seja. Eu acho que tem a ver como eu me relaciono com outro. Tem a ver com a gente abrir mão em algum momento de dizer como o outro tem que ser, o outro tem que agir, o outro tem que pensar."

Toni Reis, que é presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais, analisa que muitos pais têm receio de que abordar o tema da diversidade sexual dentro das escolas seja um estímulo ao homossexualismo.

Mas ele contesta esse argumento, mencionando que a comunidade GLBT é alvo de violência, e que também é responsabilidade da escola construir valores de respeito.

"O que nós queremos é que não se faça apologia à homossexualidade, mas que se faça apologia à cidadania e ao respeito aos direitos humanos."

A Câmara aprovou projeto de lei que criminaliza o preconceito com base na orientação sexual. A proposta agora está no Senado.

De Brasília, Daniele Lessa

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fonte: Rádio Câmara 02/12/2010

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