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Lidar com o preconceito é desafio para os pais

Do G1 - 10/12/2010

Passeatas pelos direitos dos homossexuais chegam a reunir milhões de pessoas, mas as agressões e até mesmo assassinatos persistem. Muitas vezes, a intolerância está dentro de casa.

O estudante Felipe Capozzi tem 25 anos, mora em São Paulo e adora música, desde menino, mas ir ao colégio era um sofrimento. O piano acabou sendo um aliado diante da falta de amigos e da hostilidade no ambiente escolar.

“Eu lembro dele ir chorando e, às vezes, voltava chorando do colégio. Eu chorava junto”, conta Mônica Capozzi, mãe do Felipe.

“Porque eu via as pessoas como inimigas, porque elas estavam lá para me provocar. Então, eu ia lá só para cumprir com a minha obrigação e me dedicava bastante aos estudos”, lembra Felipe.

“Eu achava que poderia ser algo ligado à sexualidade, mas era tudo muito vago na minha cabeça. Tinha hora em que eu pensava que eu estava delirando”, diz Mônica.

Gílson Rodrigues mora no Rio de Janeiro, tem 19 anos, é universitário. Não conhece Felipe, mas entende perfeitamente o que ele enfrentou: desde muito novo, Gílson também percebeu que, em alguma coisa, era diferente dos outros garotos.

“Desde criança, eu sou zoado na escola de gay, de veado e sofri bullyng, às vezes, até de apanhar e de sofrer ameaças”, diz o estudante.

A reação ao preconceito vem crescendo no Brasil: passeatas pelos direitos dos homossexuais chegam a reunir milhões de pessoas, mas as agressões e até mesmo assassinatos persistem. Acontecem diariamente nas escolas, nas ruas, em todo lugar. Muitas vezes, a intolerância está dentro de casa.

“Diferentemente do racismo, o negro sofre preconceito na rua, mas em casa ele tem todo um acolhimento. Os gays não. Eles sofrem preconceito na rua e, muitas vezes em casa, eles são mais reprimidos ainda”, destaca Felipe.

Com Felipe foi diferente. Ele teve em casa, tanto do pai como da mãe, a compreensão que não encontrava na escola. “Na verdade, eu acho que eu nunca precisei chegar e contar para ela (a mãe). Simplesmente acho que um dia a gente estava conversando sobre o assunto e isso veio à tona e eu percebi que ela já sabia”, revela Felipe.

“Eu acho que eu tive dificuldade. Acontece que isso para mim foi diluído em tanto tempo, tantos anos. Eu tive tanto tempo para conviver com essa ideia e vi meu filho sofrer tanto que eu achava que alguma coisa tinha que acontecer. Eu via o Felipe muito contido, sempre muito contido. Aí eu vi outro Felipe, mais aberto, mais feliz. E que mãe não quer ver o seu filho feliz?”, aposta Mônica.

Gílson, hoje, é aceito pela família, mas nunca conseguiu conversar em casa sobre sua orientação sexual. Acabou encontrando ajuda na Abia, uma ONG fundada em 1986 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.

As oficinas de fotografia ajudam jovens como Gílson a não perder o foco, na questão da autoestima.

“A gente vai conversando, através do diálogo, das artes, das oficinas, de grupos, a gente consegue fazer com que a pessoa se aceite, veja que ela não está sozinha e que aquilo não é único e que aquilo não é errado e não é de nenhuma forma ruim e prejudicial para ela”, diz Gílson.

“É o que a gente sempre disse: falar, cada vez mais abertamente sobre sexo nos ambientes, nas escolas, para que a gente consiga ter mais uma oportunidade de mudar certos valores, que são valores de intolerância, valores de repressão que só tem resultado em mais violência, em mais morte, em mais exclusão, apenas porque as pessoas transam, amam diferentes umas das outras”, destaca o psicólogo Veriano Terto Júnior, coordenador-geral da Abia.

“Hoje, eu sou muito mais feliz do que eu era há um tempo atrás. É uma coisa que eu não teria se eu não tivesse me aceitado e muito menos tido o apoio da família”, afirma Felipe.

“Ele é um vencedor, porque ultrapassou todas essas barreiras, todas as etapas. Sempre sendo brilhante nos estudos, sendo um expoente, estudando música, curso de línguas, ele fala dois idiomas. Então, é um menino extremamente esforçado. Que mãe não vai ter orgulho? Eu fico muito feliz, eu fico muito feliz de ser mãe do Felipe”, afirma Mônica.
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