27.12.10

Mercado do sexo é lucrativo em Roraima

Da Folha de Boa Vista 27/12/2010

Para Catharina Montiny, presidente da Associação de Travestis, a
prostituição “é um vício, é algo que temos nojo, mas
que queremos vir sempre. Não sei explicar o que é”


ANDREZZA TRAJANO

O mercado do sexo está longe de restringir-se aos programas sexuais. Apesar de não existir um valor mensurável desse segmento em Roraima, tem surgido novas casas de prostituição, motéis e lojas de produtos eróticos. Mas sem dúvidas a prostituição é o carro-chefe do “negócio”. Sempre há clientes e mulheres disponíveis a vender o corpo em troca de dinheiro.

A equipe de reportagem da Folha percorreu durante um mês alguns pontos de prostituição, do mais simples - na rua mesmo -, ao mais refinado - em casas noturnas, que oferecem striptease e sexo ao vivo, para o público.

Mas para entender esse ramo, é preciso saber como essas mulheres chegam aqui. Muitas prostitutas são de outros estados. Como milhares de trabalhadores de outros ramos, vêm para Roraima em busca de uma melhor qualidade de vida, seja para se manter na prostituição ou mudar de profissão.

As garotas são escolhidas principalmente em casas noturnas de Manaus (AM) por agenciadores da capital manaura e de Boa Vista. Eles combinam com elas o dia da viagem e o tempo que vão passar em Boa Vista. São eles também que compram as passagens de ônibus e embarcam as mulheres na rodoviária de Manaus.

Aqui, elas são recebidas pelos donos das casas noturnas onde vão trabalhar. Recebem moradia, mas precisam pagar por isso. A casa também fica com uma porcentagem do lucro que obtêm com o programa sexual.

Nessas casas ocorre geralmente apenas o striptease. Para não ter problema com a polícia, o programa sexual deve ser feito fora. As mulheres dançam para os homens, eles as escolhem e as levam para algum lugar, normalmente motel, casa do cliente ou até mesmo o carro.

O pagamento tem que ser feito antes da saída da boate em espécie ou cartão de crédito. O programa custa em média R$ 150,00, sendo R$ 50,00 para a casa e R$ 100,00 para a prostituta.

Uma dessas boates, no Mecejana, oferece mulheres de boa aparência e possui infraestrutura razoável para receber clientes. A casa apresenta aparente higiene, tem piscina, o bar é abastecido com diversos tipos de bebidas, possui um telão para exibição de clipes e um palco com pole dance, onde as prostitutas fazem striptease. Algumas delas moram na casa e pagam aluguel semanal.

O local possui um número limitado de mesas, o que evita aglomeração de clientes. Não é cobrada entrada, apenas o consumo. As prostitutas caminham entre os clientes, mas esperam convite para sentarem-se à mesa. Conversam, consomem bebidas alcoólicas na conta deles e depois saem para fazer o programa sexual. O ambiente é mais reservado, elas não se vestem de forma escandalosa nem agem de maneira explícita, apesar de estarem em uma casa de sexo.

Elas cobram R$ 200,00 pelo programa sexual, que deve ser pago antes de saírem da casa. Se o cliente não tiver dinheiro, pode passar o cartão de crédito. O programa inclui duas horas de sexo livre ou “serviço completo”, como dizem.

Além de homens solteiros, a Folha flagrou na casa noturna homens casados, inclusive de alianças. Havia também casais (homens e mulheres) bebendo, conversando e assistindo aos stripteases, como se tivessem ido a uma peça de teatro.

Outra casa visitada pela reportagem está instalada no bairro Asa Branca. Dezesseis prostitutas trabalham lá, sendo que duas moram no estabelecimento. São cobrados R$ 5,00 de entrada. Lá, ocorre sexo ao vivo às sextas-feiras e a casa possui quartos para onde as prostitutas levam os clientes.

Se o sexo for realizado fora da casa, o preço dobra. O programa no quarto é R$ 100,00 por uma hora, no esquema de “serviço completo”. Se a mulher for retirada de lá, sobe para R$ 200,00, também por uma hora e “serviço completo”.

Se for do gosto do cliente, homens também participam do programa. Um dos funcionários da casa, que é gay, disse que se ele participar do programa sexual, os clientes transam com as mulheres de graça. Grátis também é o sexo ao vivo. Se o homem subir ao palco e conseguir ter relação sexual com uma prostituta na presença do público – algo em torno de 100 pessoas, que gritam todos os tipos de palavras de baixo calão – o programa vira uma espécie de bônus e ele não paga nada.

Nas duas casas de prostituição, a reportagem não localizou menores de idade. Em ambas, os seguranças solicitam a apresentação da carteira de identidade de todas as pessoas que entram no estabelecimento. Inclusive, na casa do Asa Branca, ocorre batida feita pela Polícia Militar. Também em ambas, as prostitutas garantem que exigem o uso de camisinha. O preservativo também é utilizado na exibição de sexo ao vivo.

MOTÉIS – A lotação em motéis é algo que também chama a atenção. De quinta-feira a domingo, depois das 22h, é praticamente impossível conseguir uma suíte, o que reforça que o mercado do sexo é algo altamente lucrativo. As sexshops também têm conquistado a clientela, chegando a fazer pedidos por encomendas.

Programas sexuais mantêm jovens em faculdades

Mas nem todas as mulheres assumem que são prostitutas. Existe uma boa parcela que vende o corpo em troca de sexo para pagar, principalmente, a faculdade. São jovens que saem com políticos, autoridades ou empresários, acompanhando-os em eventos ou “festas reservadas” em sítios e fazendas.

Quem explica isso é um político que pediu para não ser identificado. Segundo ele, as “festinhas” regadas a sexo existem, apesar de terem diminuído de frequência nos últimos anos. A redução está atrelada ao aumento da fiscalização dos órgãos de proteção a crianças e adolescentes e principalmente aos escândalos envolvendo casos de pedofilia no estado.

“Algumas dessas jovens até têm condições de pagar faculdade, têm condições de se manter, mas são atraídas pelo poder e pela forma de ganhar dinheiro fácil”, conta.

Outras realmente vêm de classe baixa. São adeptas ao sistema do "velho que ajuda", ou seja, meio pelo qual jovens das camadas populares, inclusive garotas que não são consideradas prostitutas, passam a integrar, em busca de “melhor qualidade de vida”.


Nas ruas, a prostituição é dominada pelos travestis

Fora das casas noturnas, apenas os travestis se prostituem nas ruas de Boa Vista. Trinta e cinco deles dividem-se em quatro pontos, situados na bola do Centro Cívico, no Centro; na rotatória do Trevo, no São Vicente; na avenida Ataíde Teive, no Buritis; e também na Ataíde Teive, próximo a entrada do Pintolândia, em um ponto conhecido como “mangueira”. Cinco deles são menores de idade.

A reportagem apurou que todos os travestis residem em Roraima, mas dizem aos clientes que vieram de outros estados, principalmente do Amazonas, para cobrarem mais caro. A média do programa sexual é de R$ 50,00, por uma hora, “serviço completo”. O local onde ocorrerá o programa fica por conta do cliente. A maioria dos clientes, afirmam os travestis, são homens casados.

Em um desses pontos, a reportagem encontrou o travesti Catharina Montiny, que é presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros de Roraima (Aterr). Ele contou que assim como ocorre com ele, é a forma de ganhar dinheiro fácil que os atrai para a prostituição.

Catharina conta que se prostituiu por dois anos seguidos e que tinha parado. “Mas isso aqui [prostituição] é um vício. É sujo, é algo que temos nojo, mas que queremos vir sempre. Não sei explicar o que é”, revela.

Quanto aos travestis menores de idade, Catharina afirmou que eles fugiram de casa, uma vez que não são aceitos pela família - algo comum para início da prostituição -, mas que não pode buscar ajuda junto ao Conselho Tutelar, por temer por sua vida. O que faz, diz, é aconselhá-los.

“Tem o caso de um pai que todas as vezes que passa aqui pela mangueira e vê o filho se prostituindo corre para matá-lo”, conta, lembrando ainda outras situações inóspitas de quem vive da prostituição, como o desemprego e a violência.

Share this

0 Comment to "Mercado do sexo é lucrativo em Roraima"

Postar um comentário