22.12.10

Relações na rede antecipam futuro de bissexualidade e poligamia, crê psicanalista

22/12/2010 - 08h30 | da Folha.com

Conhecida por um discurso ímpar quando o tema é amor ou casamento, a psicanalista Regina Navarro Lins faz da internet um campo de testes para suas convicções sobre o futuro da sexualidade. E o futuro é bissexual, polígamo e sem pares, acha ela.

A sexóloga Regina Navarro Lins, autora de "A Cama na Varanda", "Se Eu Fosse Você..." e "A Cama na Rede"

Essas ideias, já presentes no seu primeiro livro, "A Cama na Varanda", ressurgem em duas obras novas: "Se eu Fosse Você..." e "A Cama na Rede". As duas são compilações de enquetes com internautas, feitas nos noves anos em que seu site ficou no ar.

Hoje, Lins combina o consultório e a militância em redes socias. Seu perfil no Twitter (@reginanavarro) tem mais de 4.000 seguidores.

Para ela, a rede evidencia que há menos pessoas desejando se fechar numa relação a dois e mais gente optando por relações múltiplas, instantâneas e efêmeras.

Folha - Que mudança a internet trouxe para o sexo?

Regina Navarro Lins - Deu origem a novos comportamentos, como o fato de se poder deletar um parceiro e trocá-lo quando se quiser. Muitos internautas se relacionam com vários ao mesmo tempo, o que acaba com a ideia de que só se ama uma pessoa. No futuro, veremos muitos relacionamentos assim. Menos gente desejará se fechar numa relação a dois e mais pessoas optarão por relações múltiplas, instantâneas, efêmeras.

Sexo ainda é tabu, com tanta exposição na internet?

Ainda. Reparou que todo xingamento tem conotação sexual? Crianças aprendem a associar sexo a algo sujo e perigoso. As mentalidades estão mudando, mas a maioria ainda sofre com desejos, fantasias, medo, culpas.

Os comentários dos internautas fugiram do esperado?

Alguns resultados das perguntas que lancei no site me surpreenderam. Disseram que gostariam de fazer sexo a três 77% dos internautas. Outro resultado que eu não esperava: 75% acreditam que é possível viver feliz sem formar um par amoroso. É o declínio daquela ideia 'preciso ter alguém que me complete'. Outros resultados confirmam o que já vinha observando no consultório: altos índices de infidelidade e de gente que ama duas pessoas ao mesmo tempo.

Na rede, o anonimato faz com que as pessoas mintam menos sobre sexo? Ou o oposto?

As pessoas são mais sinceras e se expõem mais na internet. Sentem-se protegidas. Ficam com menos censura, podem fugir daquele ambiente quando quiserem. No mundo real, a preocupação com a aceitação social inibe a espontaneidade.

Sexo virtual substitui o real?

Ainda não, mas é uma grande novidade. Ao contrário do que pensam, sexo virtual não é relação com uma máquina. O fato de não haver contato físico não significa que do outro lado não exista uma pessoa que sinta e se emocione. Muitas constroem relações amorosas virtuais e também fazem sexo dessa mesma forma. É apenas um tipo de relação diferente.

A internet favorece a traição?

Esse questionamento da fidelidade já existe há anos. Apesar de todos os ensinamentos recebidos nos estimularem a investir a energia sexual em uma única pessoa, relações extraconjugais são muito comuns. A maioria dos profissionais da minha área justifica isso apontando problemas emocionais, insatisfação na vida a dois, mas não falam o óbvio: relações extraconjugais ocorrem principalmente porque variar é bom.

A monogamia vai acabar?

O amor não é uma experiência natural, é uma construção social. O amor romântico --com a idealização do outro e aquela ideia de que os dois se transformam em um-- está saindo de cena. A busca da individualidade faz o amor romântico perder seus atrativos e leva junto a exigência de exclusividade.

Você diz que a bissexualidade será o futuro. Por quê?

Porque a tendência é que as pessoas busquem o todo de suas personalidades. Ao longo da história, sempre foi muito bem definido o que é feminino e masculino.
Para corresponder a isso, cada um tem que rejeitar em si aspectos que são considerados do outro sexo. Homens devem ser fortes, corajosos, agressivos, mulheres devem ser dóceis, emotivas e delicadas. É evidente que homens e mulheres têm todos esses aspectos.

Há uma tendência agora a se desejar ser o todo, a integrar os aspectos considerados masculinos e femininos da personalidade. Daqui a algum tempo, é possível que a escolha do objeto de amor não seja feita segundo o sexo, mas segundo a compatibilidade psíquica.

Sexo enjoa? A grande exposição ao sexo não o banaliza?

Sexo enjoa tanto quanto beber água. Sexo é aprendizado, e quanto mais livre formos, mais aprenderemos. Quanto mais se puder intensificar o prazer, a descoberta, melhor. Se você não fizer sexo com uma pessoa, você fará sozinho no banheiro. Sexo é banal por natureza, é vulgar, é comum e tem que ser assim: todo mundo faz. E quem não faz gostaria de fazer.

E o que explica essa onda de repressão a homossexuais?

Em muitos casos, os homens mais homofóbicos atacam porque temem perceber neles aspectos considerados não masculinos. É como se quisessem socar, matar uma parte deles que está inconsciente. Um heterossexual tranquilo quanto a sua sexualidade vai agredir gay a troco de quê? Outro problema é o gay homofóbico. Ele é o algoz de si mesmo, porque introjeta toda a discriminação da sociedade. A homofobia é muito séria, deve ser combatida e criminalizada.

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