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13.12.10

SP: Beijaço gay em frente a uma doceria reúne cerca de 100 pessoas

Fonte: A Capa
Por Marcelo Hailer 12/12/2010

Aconteceu neste domingo (12), um beijaço promovido pelo grupo virtual "Ato Anti-Homofobia", em frente à doceria Ofner, que fica na região dos Jardins, em São Paulo. O motivo: um casal gay foi destratado pelo segurança da loja ao trocarem carícias.

A reportagem chegou ao local por volta das 17h30 e encontrou um discreto mas animado grupo de pessoas. Elas demonstravam ansiedade e temeridade com a possibilidade de o ato se tornar um fracasso. Conversamos com Mariana Motta, 22, estudante de arquitetura, que pediu para não ter o nome da universidade divulgado por medo de "represálias".

Animada, Mariana disse que em pouco tempo de existência o coletivo virtual, que tem a sua página no Facebook, já conta com mais de 900 participantes. Também disse que no sábado (11) ela e seus amigos foram fazer panfletagem sobre a manifestação na Praça Benedito Calixto e na rua Augusta.

Por volta das 18h15, começaram a chegar os manifestantes munidos de dezenas de guarda-chuvas com as cores do arco-íris e com inúmeros cartazes. Quem marcou presença no ato foi o jornalista Leão Lobo, que se declarou "muito assustado" com a onda de ataques homofóbicos.

Lobo contou que uma vez já foi ameaçado por skinheads. "Estava com uns amigos em um café no Copam, de repente escutei 'Leão Lobo', fui olhar imaginando que fossem fãs, mas não, um careca mostrou o dedo do meio e vi que em sua camiseta tinha uma suástica", disse o jornalista.

Em seguida, Lobo aproveitou para criticar também a censura da Rede Globo em relação aos beijos gays. "Hoje nós vivemos a era do não beijo. É muito engraçado, a Globo coloca gays em todas as suas novelas, mas sempre censura o beijo entre eles. E ainda vemos o Walcyr Carrasco dizer que a culpa é do Ministério Público. É muito fácil jogar a culpa nos outros", protestou.

O casal vítima de homofobia dentro da loja da Ofner, Marcelo, 33, e Lucio, 30 (foto), participaram do ato. Eles relataram exatamente o que aconteceu. Segundo Lucio, o casal começou uma brincadeira de cronometrar o tempo que a amiga iria levar no banheiro. Depois de trinta minutos de espera, Marcelo, que estava cansado, encostou a cabeça no ombro do namorado. Nesse instante, o segurança cutucou Lucio e chamou a atenção dos dois.

"De uma forma muito grosseira ele disse que aquele lugar (Ofner) era de família e que não eram permitidas atitudes 'bichas' no ambiente", denunciou Lucio. "Nós pedimos para chamar o gerente, que no início se negou a falar com a gente, depois, veio defender a loja. Quando disse que íamos processar, ele mudou o discurso e veio pedir desculpas", contou Lucio, que junto com o namorado abriu processo contra a Ofner baseado na lei 10.948, que pune estabelecimentos que discriminam homossexuais no Estado de São Paulo.

Quem causou frisson ao chegar ao local foi a Tchaka Drag, desta vez acompanhada da também drag Bill da Pizza. "Hey Ofner, pode preparar o meu café e baixar o preço do panetone!", avisou Tchaka Drag. Neste momento, quem também chegou foi a reportagem do programa "CQC". O repórter Rafael Cortez e as duas drags fizeram inúmeras cenas.

Inevitavelmente, muitos clientes da doceria quiseram saber o que estava acontecendo. A maioria desconhecia o ocorrido e passou a apoiar os manifestantes. Por volta das 19h, Tchaka Drag levou todo mundo para a entrada principal da doceria e protagonizou o beijo coletivo. Nem o repórter Rafael Cortez saiu ileso do ato.

Após o beijaço, o grupo, que já somava mais de 100 pessoas, seguiu para a avenida Paulista com destino ao número 700, local onde ocorreu a primeira agressão homofóbica, no último mês de novembro. Ao término do ato, Bill da Pizza leu o manifesto do grupo e pediu aos presentes que se "politizem", lembrando também que as candidatas Iara Bernardi e Fátima Cleide, ambas do PT, não se elegeram. "E gente, o Jean Wyllys não se elegeu com o voto da comunidade gay", disse Bill da Pizza.

Dimitri Sales, da Coordenação de Política Públicas LGBT de São Paulo, disse que estava feliz com a manifestação e que o ato "faz bem para o movimento". "Chegamos em um momento irreversível, é agora ou nunca para lutarmos pelos nossos direitos", discursou.