16.3.12

Paulete Furacão é a 1ª transexual a assumir cargo em governo da Bahia

O antropólogo Luiz Mott diz, porém, que a nomeação de Paulete não é suficiente para garantir a luta por direitos


Leo Barsan
leo.barsan@redebahia.com.br

Os primeiros relatos sobre travestis no Brasil datam de 1591, segundo o presidente de honra do Grupo Gay da Bahia (GGB), o antropólogo Luiz Mott. Nesta , 421 anos depois, a história que começou com o escravo africano Francisco Manicongo, conhecida como Chica Manicongo, ganhou novas linhas após a transexual Paulete Furacão, 25, assumir um cargo na Secretaria Estadual da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH).

Ela, cujo nome civil é Paulo César dos Santos, vai coordenar o Núcleo de Defesa dos Direitos da População LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros). A nomeação saiu no Diário Oficial em 15 de fevereiro.

Capítulo inédito na Bahia, a transexual é a segunda no país a ocupar uma função em secretarias estaduais. O primeiro caso ocorreu no Ceará. No discurso, emocionada, Paulete afirma que sua posse é uma vitória da população LGBTT. “Não é uma conquista minha, mas sim de todo o movimento. A discriminação se perpetua, mas hoje a gente vê que existe uma luz no fim do túnel”.

No passado bem distante, lembra Mott, Chica Manicongo, que vivia na Ladeira da Misericórdia, Centro, foi denunciada à inquisição por “vestir-se como mulher”. No mais recente, Paulete, criada no Nordeste de Amaralina, conta que também se viu condenada a ficar sem seus direitos, sobretudo profissionais.

“Quando eu era mais nova, as pessoas perguntavam: por que você não faz um curso de cabeleireira ou vira profissional do sexo? Eu me perguntava: só existem essas duas profissões?”, recorda. Não que ela menosprezasse as profissões sugeridas (ou impostas), mas por que teria que limitar-se?
Aliás, a inserção de travestis e transexuais no mercado de trabalho será a principal bandeira levantada por Paulete, quando sentar-se na cadeira de secretária administrativa II da SJCDH, segundo ela.

Aceitação
Desde os 5 anos, Paulete já se enxergava como mulher. “Tem fotos minhas com meu irmão que nem me reconheci. Nessa época, já usava roupas femininas, sem a presença dos meus pais, claro”, revela. Apesar disso, ela diz que não tinha como esconder a sua sexualidade. “Nem precisava. Estava muito aparente. A aceitação foi mais fácil até por minha família ser da área de saúde”, acredita.

Do lado de fora de casa, no entanto, as dificuldades eram muitas. “Sofri muito preconceito. Até para ir a determinados lugares, precisava ser de táxi porque de ônibus não conseguia. Não deixavam”, lamenta. Mas a maior decepção para a agora secretária administrativa veio da parte de um amigo. “Eu preparei uma festa de aniversário surpresa com a mãe dele e o chamei para ir ao shopping. Ele disse que não iria porque não queria ser visto com um viado”, rememora Paulete.

O sobrenome social, Furacão, tem explicação: “Escolhi por uma questão de autoafirmação, o poder, o impacto de transformação que esse fenômeno tem. É assim que vou atuar no núcleo”, assegura. Antes de ocupar um cargo público, Paulete Furacão passou a integrar o Conselho Estadual de Proteção aos Direitos Humanos (CEPDH), também vinculado à SJCDH.

E, antes ainda, a nova servidora pública fundou com amigos, em 2006, a Associação Laleska de Caprid, no Nordeste de Amaralina, em homenagem à transexual brutalmente assassinada dois anos antes na mesma região. “A gente entendeu que precisava criar um grupo para combater esses crimes de ódio contra os homossexuais. Fazemos ações sociais como palestras sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e atuamos fora do bairro também”.

Direitos
Para o titular da SJCDH, secretário Almiro Sena, a posse de Paulete é histórica. “A história da discriminação reforça a necessidade de inserirmos pessoas desse grupo no aparelho do Estado. Todo tipo de violência deve ser reprimida”.

Ele acrescenta que o núcleo coordenado por Paulete vai reforçar a articulação da secretaria com a finalidade de promover os direitos da população LGBTT. “O governador Jaques Wagner está entusiasmado com essa nova fase. Seremos cobrados pelo nosso trabalho”, disse Sena.

O antropólogo Luiz Mott diz, porém, que a nomeação de Paulete não é suficiente para garantir a luta por direitos. “A história caminha para melhor, mesmo a passos lentos. Mas é fundamental que o governo garanta a sobrevivência desse núcleo”, avalia.

Entre os meios de “sobrevivência”, indica Mott, está a instalação de campanhas nas ruas com mensagens que estimulem a tolerância e o respeito à diversidade. “Este ano já foram 11 assassinatos. Ano passado, 29. E as agressões continuam”. Ele lembrou a agressão sofrida por um casal gay na Estação Pirajá essa semana.

Fonte: Correio 24 horas


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