1.5.13

Luiz Mott: "A cada 26 dias, um homossexual é barbaramente assassinado no Brasil"

da Gazeta On line
O antropólogo e humanista Luiz Mott
relata que tem dedicado sua vida
 à busca da verdade, da justiça
e da felicidade
 Das paradas gays à homofobia, ele desmonta o mito de que o povo brasileiro possui um comportamento livre, sexual e tolerante


O antropólogo Luiz Mott se considera, acima de tudo, um humanista. Segundo ele, as pessoas nascem para ser felizes. E, se tivermos acessos a cultura e ao ensino acadêmico, devemos ter o compromisso de ajudar a melhorar a humanidade contra a barbaridade, intolerância e violência.

“O meu lema de vida tem sido a busca da verdade, justiça e felicidade”, diz esse senhor distinto de 66 anos, autor de mais de 200 artigos e 20 livros sobre homossexualidade, direitos humanos, AIDS e inquisição. Luiz é um especialista em história brasileira com todas as credenciais de intelectual de sucesso. Pesquisador, mestre pela Sorbonne, é a maior autoridade brasileira em estudos da homossexualidade.

Como surgiu o interesse por estudar a homossexualidade?

Sou natural de São Paulo, de uma família católica tradicional e desde menino me percebi diferente, com tendências à homossexualidade. Fui seminarista, sempre negando essa possibilidade. Tive um casamento de cinco anos, duas filhas, até que percebi que quem estava errado era a sociedade e não eu. Era 1980, havia uma efervescência social no país. Certa vez namorando discretamente com o meu companheiro, aqui na Bahia, levei um tapa de um homem homofóbico. A partir de então eu vi a necessidade de estudar e organizar um grupo para defender os direitos de cidadania da população homossexual.

Foi aí que surgiu o Grupo Gay da Bahia?

O grupo Gay da Bahia foi fundado em fevereiro de 1980 e estamos completando 33 anos. Os objetivos do grupo são denunciar e lutar contra todas as manifestações de homofobia; divulgar informações corretas sobre a homossexualidade; e lutar pela cidadania da população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTT).

         É fundamental que os gays tenham orgulho da sua orientação sexual. O grito e a autoestima são armas    fundamentais contra a opressão

              Luiz Mott, antropólogo


 Quais são as principais conquistas gays nas ultimas décadas?

A homossexualidade foi considerada um crime durante séculos. O nazismo mandou mais de 300 mil gays para os campos de concentração. Depois de tantos séculos de extrema opressão, finalmente no final do século 19, alguns homossexuais mais corajosos e inteligentes passaram a se organizar. A principal vitória nas ultimas décadas é a maior visibilidade dos gays e lésbicas saindo do armário. A ascensão do movimento de travestis e transexuais que passam a ter o direito a usar o nome feminino a fazer operação de transgenitalização. Nos últimos anos, vemos no Ocidente o direito ao casamento, a adoção de filhos e a herança. No Brasil, embora devagar – até mais que nossos vizinhos como Argentina, Chile, México e Uruguai – aqui também já conseguimos algumas conquistas. Em 2011 o Superior Tribunal Federal equiparou a união homoafetiva ao casamento igualitário, embora o Brasil continue na liderança dos crimes contra a população LGBT.

O Brasil é um país tolerante à homossexualidade?

O Brasil é um país contraditório. Ele tem um lado cor-de-rosa, que é o de tolerância representado pela maior parada do orgulho gay do mundo, que acontece em São Paulo. Temos uma associação brasileira de gays, lésbicas e travestis, que é a maior da América Latina e que reúne três centenas de grupos. Vemos travestis nas ruas em quantidade, embora ainda não apareça o beijo gay nas novelas, mas também há muita visibilidade de cantores e artistas gays na mídia.

Mas nós temos um lado vermelho-sangue, representado pela homofobia na sua mais agressiva demonstração, que são os assassinatos. Em 2012 foram documentados pelo Grupo Gay da Bahia 338 assassinatos de gays, lésbicas, travestis e transexuais vítimas de algum tipo de homofobia individual ou cultural. Essa segunda pode ser ao exemplo do deputado federal Jair Bolsonaro que chega a dizer que prefere que o filho morra num desastre de automóvel do que seja gay. Essa homofobia é fruto do machismo e do patriarcalismo que leva os michês (garotos de programa) a matarem e roubarem os seus parceiros gays, imbuídos da ideia de que o gay é vulnerável, fraco, covarde e mulherzinha. A terceira forma de homofobia e que está por traz desses crimes é a governamental, quando a presidente Dilma proíbe a distribuição do kit anti-homofobia, aprovado pela Unesco, e com objetivo de capacitar contra o bullying e intolerância mais de 6 milhões de estudantes adolescentes do Brasil afora. Esse é o lado vermelho-sangue do Brasil, que torna o nosso país o campeão mundial de assassinatos de homossexuais e isso não pode ser tolerado. A cada 26 dias um homossexual é barbaramente assassinado, vítima da homofobia.

 Os governos têm feito algo para evitar esse alto índice de assassinatos?

Desde 1996, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso pronunciou pela primeira vez a palavra homossexual em público e depois em 2002 e em 2005, quando os homossexuais foram incluídos no primeiro e no segundo plano dos direitos humanos, há uma boa vontade governamental no sentido de incluir mais de 20 milhões de LGBTs (10% da população) nas políticas públicas de cidadanias e direitos humanos. Porém os governos Lula e Dilma, embora tenham igualmente propostos às diversas ações afirmativas para nossa comunidade, quase nada saiu do papel. As políticas públicas para homossexuais não estão dando certo, nem no que se refere à segurança da população, já que os assassinatos cresceram em proporções alarmantes nos últimos anos. Nem no que se refere à prevenção do HIV/AIDS, já que enquanto o índice geral para os heterossexuais é uma contaminação pelo HIV em 0,9%, entre os jovens gays é de 11%. É fundamental que todos os níveis do poder imitem o que vem acontecendo no Judiciário, que dos três poderes é o que mais tem apoiado com coragem e acerto as reivindicações dos homossexuais. Nós não queremos privilégios, queremos direitos iguais.

Qual a real função das paradas gays?

As paradas gays comemoram o dia 28 de junho 1969, quando nos Estados Unidos os gays, lésbicas e travestis estavam em Nova Iorque e reagiram a constante violência policial que invadia os bares e extorquia os homossexuais. A partir desse ano passaram a serem realizadas as paradas do orgulho LGBTs. Aqui no Brasil começou há quase 20 anos. As finalidades são dar visibilidade massiva a população LGBTs, para que os brasileiros saibam que somos milhões e estamos em todas as partes e que nos respeitem. Também é uma oportunidade para muitos gays iniciarem sua experiência de sair do armário e se assumir. Além de convocar a solidariedade da população em geral para que apoiem e respeitem os gays como cidadãos que merecem ser respeitados.

O que falta acontecer para o Brasil se tornar mais amigável nas questões dos homossexuais?

A homofobia é uma doença social que tem cura. Através da informação, da vigilância e da punição dos faltosos. Há países que diminuíram suas taxas de intolerância racial, sexual e homofóbica, através de medidas públicas e ações afirmativas. São necessárias basicamente ações emergenciais imediatas para retirar o Brasil dessa vergonhosa posição e líder no ranking mundial de assassinato de homossexuais. Primeiro é a educação sexual obrigatória em todos os níveis escolares, ensinado desde a pré-escola, o direito à diversidade sexual, respeito as minorias, contra o bullyng e uma convivência de tolerância a todas as minorias. A segunda ação é legislação que puna severamente os praticantes de homofobia. Nós desejamos simplesmente que a homofobia seja equiparada ao crime de racismo. O projeto de lei 122, que está no congresso há quase uma década, e vive sendo bombardeado pelo parlamentares evangélicos e fundamentalista católicos, deve ser aprovado porque nada justifica tratar o gay com violência. Uma legislação mais severa, que a polícia investigue com mais rigor e que a justiça condene com mais severidade os crimes homofóbicos. E que a própria comunidade homossexual denuncie quando vítima de qualquer violência. É fundamental que os gays tenham orgulho da sua orientação sexual.

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